Ttulo: Raio de Sol.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Livros Abril, So Paulo, 1984.
Ttulo Original: A Shaft of Sunlight.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente 
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Raio de sol

Atravs dos ramos das rvores, o vermelho e o dourado dos ltimos raios
de sol tornavam tudo to irreal que o duque de Alverstode, envolvido pelo
encantamento da paisagem, continuou andando at o fim do imenso
pinheiral. L, avista sobre o vale era magnfica... De repente, percebeu
que no estava sozinho. Uma jovem, plida e magra, usando um vestido
cinza, estava sentada em um tronco e o observava. Ela parecia ser a
primeira sombra da noite que chegava, e seus olhos grandes e suaves, as
ltimas fontes da luz do dia. Fascinado, o duque contemplou a
desconhecida e no soube o que responder quando ela se dirigiu a ele numa
voz celestial: "Voc  exatamente como o imaginei, belo e altivo como um
deus grego!"

Barbara Cartland
Raio de sol
Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.
LIVROS ABRIL Romances com Corao Caixa Postal 2372 - So Paulo
Ttulo original: "A Shaft of Sunlight"
Copyright: (c) Cartland Promotions 1981
Traduo: Maria do Rosrio Sobral
Copyright para a lngua portuguesa: 1984 Abril S. A. Cultural - So Paulo
Esta obra foi composta na Linoart Ltda. e impressa na Editora Parma Ltda.

NOTA DA AUTORA
Foi depois do desenvolvimento das plantaes de cana-de-acar que o
comrcio de escravos, entre a costa ocidental africana e as Amricas,
assumiu enormes propores, transformando-se no negcio mais lucrativo da
poca.
Os ingleses tornaram-se os principais importadores de escravos, embora
outros pases, como a Holanda e a Frana, tambm participassem deste tipo
de comrcio.
Os navios partiam de um porto de origem como Liverpool, carregando
bebidas, artigos de algodo, armas e bijuterias que eram trocadas por
escravos, ao longo de toda a Costa da Escravatura - o golfo da Guin.
Depois rumavam para alguma das Colnias ou pases do continente
americano. Os escravos, amontoados nos pores dos navios, muitas vezes
acorrentados para que no pudessem se rebelar ou se atirar ao mar,
sofriam de maneira atroz.
A comida era pssima, a gua escassa e a mortalidade muitas vezes chegava
a atingir a proporo assustadora de vinte por cento. Se, durante uma
tempestade, se fizesse necessrio reduzir a carga, os doentes eram
lanados ao mar.
Na chegada, os escravos eram mantidos em paliadas, esperando pelos
compradores. O navio era ento carregado com outra carga, tal
como acar, produzido nas plantaes americanas, e partia de volta a seu
pas de origem. Se tudo corresse bem, os lucros seriam enormes.
Apesar dos veementes protestos dos Quakers e de William Wilberforce
contra esse trfico, foi apenas em 1806 que o Parlamento proibiu os
mercadores ingleses de fornecerem escravos a outros pases, assim como
sua importao para os protetorados ingleses.
No entanto, o trfico continuou at 1811, quando passou a ser considerado
comrcio criminoso.


CAPTULO I
1819

O mordomo de Alverstode House, em Grovesnor Square, ficou admirado ao ver
o visconde Frome, saindo de seu faetonte, elegantemente vestido.
Sua admirao nada tinha a ver com a aparncia de Sua Senhoria, pois era
conhecida a ambio do visconde em ser aclamado como um dos dez mais do
Beau Monde.
O que surpreendia era o fato de o pupilo do duque de Alverstode, de
apenas vinte e um anos de idade, aparecer de manh to cedo.
Barrow bem sabia que, tal commo o resto dos jovens modernos, o visconde
continuava a se levantar tarde e passar pelo menos duas horas se
arrumando antes de aparecer em pblico.
Agora, quando o relgio sequer batera nove horas, o visconde subia as
escadas do imponente casaro.
- bom dia, milorde! - saudou Barrow. - Veio ver Sua Alteza?
- No estou atrasado? - indagou o visconde, ansioso.
- De maneira alguma, senhor. Sua Alteza voltou de seu passeio a cavalo h
apenas dez minutos e est tomando o caf da manh.
Sem esperar para ouvir mais nada, o visconde atravessou o majestoso
vestbulo de mrmore e foi at a sala que dava para o jardim, na parte de
trs da casa.
O duque de Alverstode estava, como de costume, sentado numa mesa junto 
janela, com o Times apoiado sobre um pequeno cavalete de prata, servindo-
se de um lauto caf da manh.
Assim que o visconde entrou, o duque encarou-o com a mesma expresso de
surpresa que o jovem lera no rosto do mordomo.
- bom dia, primo Valerian - cumprimentou o visconde.
- Deus do cu, Lucien! - exclamou o duque. - O que o traz aqui a esta
hora da manh? Ser que foi desafiado para um duelo, para se ter
levantado to cedo?
- No, claro que no! - respondeu o rapaz, imediatamente, antes de
perceber que seu tutor estava brincando.
Sentou-se do outro lado da mesa e ficou em silncio. O duque percebeu que
seu pupilo estava nervoso.
- Se no  um duelo - comentou, depois de servir-se de uma costeleta de
carneiro -, ento o que pode estar preocupando voc.
Silncio novamente, at que o visconde disse abruptamente:
- Estou apaixonado!
- Outra vez? - exclamou o duque, parando de comer.
- Desta vez  diferente! - explicou o visconde. - Sei que julguei muitas
vezes estar apaixonado antes, mas agora  muito, muito diferente, mesmo.
- Por que  diferente? - indagou o duque.
O tom em que formulou a pergunta fez com que o visconde olhasse para ele
com apreenso.
O tutor, apesar de ser um homem muito atraente, era pessoa que intimidava
e no havia ningum no Beau Monde que no tratasse o duque de Alverstode
com grande respeito.
At mesmo as mulheres que andavam atrs dele, e no eram poucas, quando
se confidenciavam umas com as outras, admitiam ter receios de se
aproximarem dele.
O prprio regente acatava a opinio do duque e raramente o contradizia.
- Quero me casar com Claribell - anunciou o visconde, depois de alguns
instantes. - Mas voc me fez jurar que no pediria ningum em casamento
sem ter primeiro sua autorizao.
- Uma precauo muito sensata da minha parte - comentou duque, secamente.
- No acredito que tivesse sido feliz se o tivesse deixado casar-se com a
filha daquele professor que virou sua cabea,
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quando estava em Oxford, ou com aquela danarina que voc garantia ser o
amor de sua vida.
- Eu era muito jovem naquela poca - respondeu o visconde rapidamente.
- E agora no  muito mais velho - lembrou o duque.
- Tenho idade suficiente para saber o que quero! - retorquiu o visconde.
- Sei que vou ser loucamente feliz com Claribell e pelo menos voc no
vai poder dizer que ela  vulgar, como dizia de todas as outras senhoras
por quem estivesse interessado.
O duque arqueou as sobrancelhas.
- Senhoras? - perguntou sarcasticamente.
- Pense o que quiser - disse o visconde com petulncia. - No eram to
vulgares quanto voc dava a entender. De qualquer maneira, agora com
Claribell voc no vai querer cortar o meu dinheiro, porque ela tem
fortuna prpria.
- J no  nada mau - aquiesceu o duque. - Mas conte-me mais sobre essa
moa que aprisionou seu vacilante corao.
O visconde nem precisou de mais encorajamento. Inclinando-se para a
frente, com os cotovelos em cima da mesa, comeou:
- Ela  linda, to linda que me fez pensar que desceu do Olimpo. E me
ama! Voc acredita? Ela me ama por aquilo que sou!
A expresso do duque estava mais cnica do que nunca, pensando em quantas
mulheres j se tinham apaixonado por seu pupilo e certo de que ainda
haveria muitas mais.
O pai do visconde era um primo afastado, que fora morto em Waterloo. Fora
um choque no muito agradvel para o duque, descobrir que se tinha
tornado tutor do filho dele.
O testamento do ltimo visconde Frome tinha sido feito alguns anos antes,
quando o prprio pai do duque ainda era vivo.
Estava escrito que, se alguma coisa lhe acontecesse, enquanto estivesse
servindo no Exrcito de Wellington, seu filho e mais algum que viesse a
ter ficariam sob a tutela do duque de Alverstode.
O atual duque julgava um descuido muito grande, por parte dos advogados,
terem elaborado o testamento do primo, omitindo o nome de seu pai como o
terceiro duque de Alverstode e, consequentemente, futuro tutor dos filhos
do visconde de Frome.
Esse pequeno detalhe teria permitido que o atual duque passasse a tarefa
de cuidar do jovem Lucien a outra pessoa da famlia.
Agora, porm, tudo o que tinha a fazer era tentar impedir que o rapaz
fizesse um casamento desastroso.
Todas as moas que haviam despertado o interesse do visconde, at aquele
momento, eram, sob o ponto de vista social, absolutamente inaceitveis.
As duas jovens que Lucien mencionara, no haviam sido as nicas,
recordava o duque. Houvera tambm uma viva, interessada em obter uma boa
situao social; era uma senhora muito mais velha que seu pupilo e
sonhava em tornar-se viscondessa.
Houvera ainda outra, de virtude duvidosa, que tentara fazer um escndalo
quando tudo acabara, mas que, afinal, se calara ao receber uma generosa
quantia em moedas de ouro.
- Seus elogios a essa misteriosa criatura so comoventes - disse o duque,
brincalho. - Mas voc esqueceu de dizer-me o nome de tal beldade.
-  Claribell Stamford - disse o visconde, arrebatadoramente. O duque
ficou tentando se lembrar onde ouvira esse nome.
- Stamford! - exclamou ele, passado um momento. - No me diga que  a
famlia de sir Jarvis Stamford, o proprietrio de cavalos de corrida?
- Ela mesma - assegurou o visconde. - Sabia que voc se recordaria do pai
dela. Ele possui cavalos excelentes. Se no me falha a memria, um de
seus cavalos perdeu para o dele, no ano passado em Cambridgeshire.
- Por puro acaso - comentou o duque, na defensiva. Depois deu uma risada
e acrescentou: - Lembro-me de como Stamford ficou satisfeito por ter-me
vencido.
- Mas isso no  razo para voc ficar contra a filha dele protestou o
visconde.
- Eu no disse que estava contra - retorquiu o duque.
- Ento vai me deixar casar com ela? - perguntou o visconde, muito
ansioso.
O duque ficou calado.
Estava pensando que, aos vinte e um anos, Lucien era ainda muito jovem,
inexperiente e, na sua opinio, to cabea oca quanto qualquer colegial.
Era muito rebelde tambm e, na opinio de muita gente, levava uma vida
desregrada.
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No que o duque o condenasse por isso. Era o normal para qualquer jovem:
uma vez que no estavam em guerra, eles tinham que exteriorizar suas
energias, no importando a quem pudessem prejudicar.
O duque tinha a impresso de que Claribell, ou l como se chamasse a
ltima ninfa de Lucien, no seria uma esposa melhor que as outras todas
por quem ele se tinha interessado antes.
Estava pensativo e o visconde olhava para ele, inquieto, at que no
resistindo mais, ameaou:
- Se voc me negar a autorizao para cortejar Claribell, primo Valerian,
juro que vou convenc-la a fugir comigo e que se danem as consequncias!
O duque ficou irritado.
- Se ela for o tipo de moa que voc deve desposar e a quem eu aprovaria,
ela mesma vai se recusar a cometer semelhante loucura!
Fez uma pausa antes de acrescentar:
- Nenhuma garota decente e que saiba se comportar corretamente vai querer
considerar a hiptese de fugir e de se casar por a de qualquer maneira.
Voc est apenas tentando chantagear algum que se interessa pelo seu
bem.
O visconde recostou-se na cadeira, com um ar de dignidade ofendida.
- Tenho vinte e um anos e pensei que me fosse permitido agir como um
homem e no como uma marionete amarrada nas fitas do seu avental.
O duque fez um trejeito com a boca.
- Uma metfora um pouco confusa, meu caro Lucien - disse ele -, mas d
para entender.
- Voc me trata como se ainda usasse fraldas - queixou-se o visconde.
- Estranho que pense assim - retorquiu o duque. - Estou apenas pensando
nos seus interesses. Tenho que admitir que essa miss Stamford me parece
ser melhor que as candidatas anteriores.
Um brilho novo apareceu nos olhos do visconde.
- Ento voc vai considerar o meu pedido?
- Evidentemente! - assegurou o duque.
O jovem se debruou de novo na mesa, ansiosamente.
-  melhor voc conhecer Claribell e ento vai entender por que quero que
ela seja minha esposa.
- Era exatamente o que eu ia sugerir - disse o duque. - Sempre
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achei que o melhor lugar para se conhecer as pessoas  em sua prpria
casa, no seu ambiente habitual.
- Voc quer dizer... - comeou o visconde, hesitante.
- Sugiro que voc pea a sir Jarvis que nos convide a ficar com ele por
um ou dois dias.
- No campo? - indagou Lucien.
- Sobretudo no campo! - afirmou o duque.
- No entendo por que esse detalhe  to importante, primo Valerian.
- Acha que tenho que explicar? - perguntou o duque. - Pensei que as
minhas razes fossem evidentes.
- Sir Jarvis tem uma casa em Londres e Claribell gosta de participar dos
bailes que esto havendo no momento.
- Claro que deve gostar - retorquiu o duque. - E, como voc dana muito
bem, devo imaginar que ela o considera o par perfeito.
Aquelas palavras no soaram como elogio e o visconde, que se orgulhava de
ser um timo danarino, corou, ressentido.
- Se eu sugerir uma visita  casa de campo e sir Jarvis no quiser sair
de Londres, o que devo fazer? - indagou o jovem, por fim.
- Creio que sir Jarvis sentir-se- honrado em me receber - comentou o
duque. - Mas, se por acaso, pretender adiar um pouco esse convite, ento,
meu caro Lucien, voc ter que esperar.
Pela firmeza com que o duque fez aquela afirmao, ficou claro que no
adiantava discutir mais.
O visconde, no entanto, estava preocupado com a ideia de Claribell no
querer sair de Londres, onde gostava tanto de estar.
O duque podia ler os pensamentos do primo e, pegando o Times, comeou a
folhe-lo, enquanto sorvia seu caf sem se importar mais, aparentemente,
com o jovem visconde.
Lucien permaneceu em silncio por algum tempo e depois disse, com
hesitao:
- Primo Valerian, acho que devo lhe agradecer por no se ter negado a
fazer o que lhe pedi. Tenho a certeza de que, quando conhecer Claribell,
compreender o que sinto por ela.
- Certamente - respondeu o duque. Acabou de tomar o caf e levantou-se.
- Agora tenho muito trabalho para fazer. O que realmente me
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preocupa  o que voc vai fazer enquanto seus amigos, que nunca acordam
antes do meio-dia, no lhe vierem fazer companhia.
- Voc est zombando de mim - respondeu o visconde, ofendido.
- Sinceramente, no - assegurou o duque. - No acho que seja motivo para
zombaria voc s fazer exerccio em pistas de dana, e o nico ar puro
que respira  o do caminho entre sua casa e o clube!
- No  verdade! - protestou o visconde. - Ontem fui ver uma luta em
Wimbledon e, na semana passada, ou foi na retrasada?, fui ver as corridas
de cavalo em Epsom.
- O que eu sugeriria, francamente - disse o duque, com pacincia -,  que
voc montasse todas as manhs, ou se preferir, ao final da tarde. Sempre
lhe disse que meus cavalos esto  sua disposio.
- No tenho tempo para isso - argumentou o visconde.
- Ou, se no quiser montar - continuou o duque, no lhe dando ouvidos -,
uns poucos rounds na academia de boxe Gentleman Jackson lhe devolveria os
msculos dos braos e aumentaria sua resistncia.
- Eu me fartei de boxe, em Eton! - contestou Lucien. - No tenho a menor
vontade de que algum me quebre o nariz! - Depois acrescentou, olhando
para o duque. - Tudo isso  muito bom para voc, primo Valerian, que  um
atleta nato.  o que todos dizem. Voc  melhor boxeador e esgrimista do
que a maioria das pessoas!
- Sou melhor porque me dei ao trabalho de aprender toda a tcnica dos
dois primeiros esportes que voc mencionou - explicou o duque. - E monto
porque adoro cavalos... - alm de que isso me mantm em forma.
- Prefiro dirigir - comentou o visconde, com petulncia.
- Um esporte para preguiosos, embora voc sempre consiga arranjar uma
audincia que admire sua percia com as rdeas.
- Agora est tentando me ridicularizar! - queixou-se o visconde, com
amargura.
O duque suspirou, depois disse, num tom diferente:
- No estou no. Na verdade, Lucien, estou pensando em voc e tentando
ajud-lo a se transformar no homem que seu pai desejaria que fosse.
Admito que talvez esteja sendo muito exigente, mas no tenho muita
prtica em ser tutor de algum.
Aquele comentrio, sem nenhuma dose de sarcasmo, afastou o olhar de
ressentimento do jovem visconde.
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- No quero ser ingrato, primo Valerian, reconheo tudo o que tem feito
por mim desde que papai morreu. Voc tem sido muito generoso e tem me
deixado fazer tudo o que quero, exceto no tocante a casamento.
- Ento, s nos resta esperar - respondeu o duque - que desta vez eu
possa dar minha opinio, de corao aberto.
- Voc vai dar a permisso, eu sei que vai dar! - disse o visconde,
entusiasmado. - Espere at ver Claribell! Voc vai ficar fascinado por
ela!
O duque sorriu, duvidosamente, enquanto o primo acrescentava:
- S tenho medo de que ela prefira ficar com voc quando o conhecer!
Sempre me disse que o admirava muito.
- Estou lisonjeado! - agradeceu o duque, secamente. - Mas no se preocupe
com isso, Lucien, porque no tenho a menor inteno de tirar Claribell ou
qualquer jovenzinha de voc. Primeiro, porque acho as jovens extremamente
maantes e, depois, porque no pretendo me casar, pelo menos nos prximos
anos.
- Voc vai ter que dar um herdeiro ao ducado, mais cedo ou mais tarde,
primo - lembrou o visconde.
- Ainda tenho tempo pela frente, antes de ficar senil - retorquiu o
duque. - Mesmo daqui a anos, certamente aparecer uma mulher disposta a
me dar um filho e a me aturar!
O visconde desatou a rir.
- No tenha dvida! A sua reputao em destroar coraes, primo
Valerian, no deixa nada a desejar!
O rosto do duque se endureceu. Era o tipo de comentrio que ele achava de
muito mau gosto e que devia ser feito pelas mulheres com quem Lucien se
relacionava.
Temendo que o primo ficasse de mau humor, o visconde se apressou a dizer:
- Se voc tem trabalho a fazer, embora eu no imagine o que possa ser,
vou-me embora. O meu faetonte est l fora.
- O novo? - perguntou o duque. - Vi a conta ontem. No h dvida de que
voc est decidido a fazer mais de uma loucura ao mesmo tempo!
- Esses construtores de carruagens so uns ladres - protestou o
visconde. - Mas voc no imagina que maravilha de veculo 
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aquele e como anda depressa. Se vier comigo dar uma olhada, primo
Valerian, ver que estou falando verdade.
- vou deixar isso para outro dia - respondeu o duque. - Middleton est
esperando por mim e temos muito que fazer antes de eu ir almoar em
Carlton House.
- Ento vou indo. Tentarei falar com sir Jarvis hoje mesmo, a fim de que
ele fixe uma data para nossa visita a Stamford Towers.
- Ficarei esperando pelo convite dele - disse o duque. - At mais ver,
Lucien!
Sem esperar pela resposta do visconde, o duque Valerian saiu da sala,
dirigindo-se para a biblioteca, onde seu secretrio e contabilista o
aguardava.
O visconde ficou observando o primo se afastar, pensando que, afinal, a
entrevista no fora to m quanto ele previra e invejando,
inconscientemente, o andar atltico e elegante do duque.
Por instantes, chegou a considerar a sugesto do seu tutor e fazer mais
exerccio. Logo depois, porm, desistiu da ideia; seria impossvel ser um
bom esportista, por isso o melhor que tinha a fazer era aproveitar o
tempo no alfaiate e nos sales de dana.
Foi para o vestbulo, onde Barrow o aguardava para lhe entregar o chapu
alto e as luvas.
- Tudo bem, senhor Lucien? - perguntou o mordomo, num tom gentil de quem
o conhecia desde criana.
- Podia ter sido pior! - suspirou o jovem.
- Fico satisfeito, senhor! - disse o homem, sorrindo.
- Obrigado, Barrow - agradeceu o rapaz.
O visconde sorriu para o velho empregado e dirigiu-se para o faetonte,
achando, com orgulho, que aquele era o mais elegante de todos os que viam
em qualquer outro lugar de Londres.
Custara uma fortuna, mas ele podia pagar. O nico problema era que todas
as suas extravagncias ainda tinham que ser aprovadas pelo tutor, antes
de as contas serem pagas.
O jovem visconde ficava irritado com isso, uma vez que seu pai lhe
deixara uma fortuna considervel, da qual s poderia dispor aps
completar vinte e cinco anos de idade.
Muitos homens administravam seu prprio dinheiro, assim que chegavam 
maioridade. Mas ele no! Ainda teria que prestar contas
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durante mais quatro anos! Aquela situao era absolutamente humilhante!
Lembrando-se de que Claribell devia estar esperando que ele lhe fosse
contar o resultado da entrevista, esqueceu-se de tudo o mais.
Queria ir ter com ela imediatamente e contar o que o duque dissera.
Sabia, no entanto, que no a poderia ver antes da hora do almoo e que
seria mais correto ir visit-la  tarde.
- No consigo esperar tanto tempo! - disse a si mesmo, achando um
martrio ficar naquele suspense.
No era de admirar que estivesse enamorado da garota mais bonita que
jamais aparecera na temporada de Londres. Mas no eram apenas os loiros
cabelos da jovem que brilhavam como raios de sol, os olhos azuis como
guas-marinhas e a pele macia e rosada como pssego, que lhe haviam
roubado o corao. Era sua firmeza, to incomum nas garotas da idade
dela.
Talvez fosse a beleza que lhe desse a segurana e porte que faltavam s
outras jovens que ele conhecera at ento.
"Com o meu dinheiro e o dela", pensava o visconde, enquanto guiava o
cavalo para Park Lane, "poderemos levar uma vida maravilhosa! Poderei dar
a Claribell tudo o que ela desejar, alm de poder ter cavalos que faro
inveja a qualquer homem em St. Jame's! "
Sentado  sua escrivaninha, com uma pilha de papis  sua frente, o duque
pensava em Lucien, enquanto o sr. Middleton lhe explicava um problema
qualquer que havia em Alverstode.
Como j acontecera outras vezes, estava preocupado com o rapaz.
Tinha certeza de que os amigos do visconde no passavam de uma coleo de
cabeas ocas, mas, por outro lado, ele prprio estava sendo intransigente
demais, por ser muito mais velho do que eles.
- No acredito que eu fosse to inconsequente quando tinha vinte e um
anos - disse para si mesmo.
O sr. Middleton acabou o seu longo discurso sobre a necessidade de se
construir um novo depsito de materais em madeira e uma estrada que
levasse at l.
- Estou preocupado com o sr. Lucien. O que tem ouvido sobre ele
ultimamente? - perguntou o duque.
- Tenho apenas ouvido contar as histrias habituais das desordens que ele
e os amigos provocam nos sales de baile.
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Fez uma pausa e, vendo que o duque estava atento, continuou: -. Outro dia
foram postos para fora de uma das mais conhecidas "casas de prazer"
porque estavam interferindo nos "negcios", e houve tambm um duelo
perigoso em que Sua Senhoria tomou parte, mas fora isso no aconteceu
mais nada que deva preocupar Sua Alteza.
- Acho que voc j tinha se retirado da sala, quando ele me disse que
queria se casar.
- com miss Claribell Stamford? - indagou o sr. Middleton.
- Sim. J calculava que voc devia ter sido o primeiro a saber! E no me
disse nada!
- No achei que o assunto fosse suficientemente srio para incomodar
Vossa Alteza - respondeu o homem. - Miss Stamford tem muitos admiradores.
- Ela  muito bonita?
- Sem dvida nenhuma, e j foi aclamada a debutante da temporada!
- Uma estrela! - comentou o duque, sarcasticamente.
- Ainda no - respondeu o sr. Middleton. - Certamente poder vir a ser,
quando os membros dos clubes repararem nela.
O duque olhou cinicamente e o sr. Middleton continuou:
- Vossa Alteza j deve ter encontrado sir Jarvis Stamford nas corridas de
cavalos.
- Acho que ele  membro do Jquei Clube - disse o duque,
despreocupadamente. - Mas, na verdade, no me lembro de termos sido
apresentados. O que voc sabe sobre ele?
- Muito pouco, Alteza, mas posso descobrir facilmente.
- Faa isso! ordenou o duque. - Tenho o pressentimento, embora possa
estar enganado, de que a certa altura ele esteve envolvido num escndalo
qualquer. Lembro-me de ter ouvido rumores sobre atitudes menos leais.
Ser que estou imaginando coisas?
- Deixe comigo, Alteza. Entretanto, tambm vou descobrir por que miss
Stamford est retribuindo  corte de Sua Senhoria. Quando ouvi falar nela
a ltima vez, estava com algum mais importante em vista.
O duque ficou pensativo, olhando para seu secretrio.
- O que voc est insinuando, Middleton - disse lentamente -,  que miss
Stamford, ou talvez o pai, esto tentando subir na escala social.
O sr. Middleton sorriu.
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- Claro, Alteza. Para todas as jovens, como  de vosso conhecimento,
quanto maior for o ttulo, melhor a presa!
O secretrio viu os lbios do duque se estreitarem e, tal como acontecera
com o visconde, lembrou-se de que qualquer meno aos seus romances, o
deixava muito contrafeito.
Middleton sabia que as mulheres andavam sempre atrs do patro, no s
por ser um homem muito atraente, mas tambm porque seu ar indiferente
constitua um desafio irresistvel para elas.
Surpreendentemente, numa poca em que as pessoas falavam abertamente e a
moral era muito relativa, o duque considerava de muito mau gosto falar de
qualquer mulher por quem estivesse interessado e esse pormenor aumentava
ainda mais a aura de mistrio que o envolvia.
No havia uma s mulher no Beau Monde que no soubesse que, conquistar o
corao do duque de Alverstode, seria uma proeza maior do que ganhar o
derby.
Apesar de o duque ter tido romances, tudo se passara discretamente e
mesmo as mexeriqueiras no ficavam sabendo de nada, a no ser quando os
casos terminavam.
No entanto, como o duque sabia escolher muito bem, e como as mulheres que
o amavam raramente se zangavam com ele, os curiosos ficavam sem conhecer
detalhes sobre seus relacionamentos.
O sr. Middleton juntou seus papis.
- vou descobrir o que quiser, Alteza - afirmou ele. - E fornecerei
qualquer informao que obtiver sobre sir Jarvis o mais rapidamente
possvel.
- Obrigado, Middleton, sabia que podia contar com voc - disse o duque,
levantando-se da escrivaninha, onde estava trabalhando h quase duas
horas, e esticando as pernas.
- Agora vou a Carlton House, mas como devo ser forado a comer e a beber
demais, o que me desagrada muito fazer ao meio do dia, mande um
mensageiro  academia Gentleman Jackson e diga-lhe que estarei l por
volta das quatro e meia. Pea que lhe digam tambm que gostaria muito de
lutar um ou dois rounds com ele, pessoalmente.
O sr. Middleton sorriu.
- Ele vai ficar satisfeito com seu convite, apesar de eu ter ouvido dizer
que na semana passada Vossa Alteza lhe deu uma boa surra.
O duque desatou a rir.
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- Acho que estava com uma sorte fora do comum, ou ento Jackson estava
desatento. Seja como for, foi um acontecimento, uma vez que Jackson  o
melhor boxeador de que se tem notcia.
- Sem dvida, Alteza - concordou o secretrio.
O dia j estava terminando, quando sir Jarvis voltou para sua imponente
manso em Park Lane.
Mal entrou no vestbulo, onde o mordomo e seis criados o esperavam, o
secretrio, um homem pequeno e insignificante que falava como se tivesse
medo de abrir a boca, veio correndo ter com ele.
- Miss Claribell pediu para ir v-la, assim que chegasse, senhor. Sir
Jarvis olhou para o secretrio, tentando perceber se haveria
uma razo oculta por trs daquele pedido.
Ia dizer qualquer coisa, mas deteve-se ao reparar que os seis criados
estavam ouvindo.
- Onde est miss Claribell? - perguntou rapidamente.
- Em sua saleta ntima, senhor.
Sir Jarvis subiu as escadas, os ps mergulhados no carpete macio e alto,
muito mais caro do que o existente na maioria das outras manses.
Chegou ao topo da escadaria e ficou admirando um quadro de Rubens que
comprara recentemente num leilo.
Esperava que fosse autntico e que no tivesse sido um engano compr-lo.
Custara uma fortuna e, se algum o tivesse passado para trs, iria se
arrepender amargamente.
Seguiu pelo corredor, recheado de mveis preciosos e entrou na sala dos
aposentos de Claribell. Tudo era decorado para ser uma moldura perfeita
para a beleza da jovem.
As paredes brancas e douradas, os pingentes azuis, o teto pintado por
artista italiano, tudo servia para realar os dotes fsicos de qualquer
mulher. Quando Claribell se levantou do sof e dirigiu-se correndo at
ele, o pai pensou em como ela parecia uma jia rara.
- Papai! Que bom que voc voltou! - exclamou a garota.
- O que est acontecendo? - indagou imediatamente sir Jarvis.
- Lucien falou com o duque! Finalmente ganhou coragem! Como voc sabe,
tive muito trabalho para convenc-lo a fazer isso.
- Mas conseguiu!
- Sim, consegui! - garantiu a moa.
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Claribell pegou a mo do pai e levou-o at ao sof, onde se sentaram,
lado a lado.
- Bem, e o que aconteceu? - perguntou o sir Jarvis. Claribell respirou
fundo.
- Lucien disse ao duque que queria se casar comigo.
Os lbios do homem se estreitaram, como se ele estivesse prevendo que o
pedido tivesse sido recusado.
- E o que  que voc acha que o duque respondeu? - perguntou Claribell.
- Conte voc, minha filha.
- Ele disse que quer me conhecer em nossa casa de campo! Sir Jarvis ficou
em silncio, olhando para a filha, como se no
pudesse acreditar no que acabara de ouvir.
- O duque quer ficar conosco em Stamford Towers? - indagou ele.
Claribell assentiu com a cabea.
- Quer e estou certa de que isso significa que ele dar o consentimento,
papai. Oh, no  maravilhoso? Poderei estar casada antes do fim da
temporada e poderei comparecer  abertura do Parlamento como viscondessa!
- E ser a mais bela de todas, minha querida - assegurou o homem, cheio
de orgulho.
- Tambm acho, papai, e voc tem que me comprar uma tiara maior e mais
valiosa que a de todo o mundo.
- Claro, claro! - concordou sir Jarvis. - Mas mal posso acreditar que o
duque deseje ficar conosco.
- Lucien tambm ficou surpreendido. Ele me disse que o duque  muito
esquisito e s aceita convites dos amigos ntimos, como o duque de
Bedford e o duque de Northumberland e que costuma recusar milhares de
outros.
- Temos que fazer tudo para que ele no se arrependa de ir a Stamford
Towers!
- E para nos certificar de que ele concordar com meu casamento com
Lucien!
- Sim, sim,  claro. Mas agora j temos meio caminho andado,
- disse sir Jarvis, achando que a filha estava um pouco insegura.
- Por que no iria aceitar voc? - perguntou secamente. - Alm de muito
bonita, voc  rica e a famlia de sua me tinha sangue azul.
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- Ser que Lucien se lembrou de falar ao duque sobre mame?
- Se ele se esquecer, eu mesmo falarei - disse sir Jarvis. - Uma vez que
o duque esteja em minha casa, ter que me dar ouvidos.
- Claro, papai, e mande j o convite. Lucien acha que a gente no deve
adiar as coisas.
- Concordo com ele - disse sir Jarvis. - Quanto mais depressa melhor!
Falou como se estivesse pensando noutra coisa e no na filha. Depois
inclinando-se, beijou-a.
- Estou muito orgulhoso de voc, querida. Tudo isto vai-nos ajudar a
esquecer o desagradvel incidente com o conde de Dorset.
- Nunca mais quero pensar nele! - exclamou Claribell. - Ele me
decepcionou e nunca o perdoarei!
- Nem eu - afirmou sir Jarvis. - Ele no perde por esperar. Mais cedo ou
mais tarde eu pegarei aquele rapaz e ele vai lamentar ter tratado voc da
forma como tratou.
Claribell levantou-se e foi olhar-se no espelho em cima da lareira.
- Como ele pode ter agido assim? - perguntou em voz baixa, como se
falasse consigo mesma. - Como pode ter preferido aquela cara de lua-cheia
da Alice Wyndham a mim?
- Esquea! Esquea! - disse o pai. - Lucien no s  visconde como tambm
o tutor dele  um dos homens mais importantes e influentes da alta
sociedade, no turfe e em todo o pas. A propriedade Alverstode  um
modelo para qualquer proprietrio de terras e um convite para Alverstode
House  quase to honroso quanto ser convidado para qualquer dos palcios
reais!
- E  onde ns ficaremos muitas vezes no futuro! - disse Claribell, num
tom sonhador.
- S espero que voc se lembre de incluir seu pobre pai em algumas
festas! - disse sir Jarvis.
- Mas  evidente, papai! E tenho o pressentimento de que uma vez que
Lucien e eu estejamos casados, voc e o duque tornar-se-o bons amigos.
Afinal, vocs dois possuem os melhores cavalos de corrida da Inglaterra.
- No todos, minha querida, mas certamente a maioria - disse sir Jarvis,
complacentemente.
-  um interesse comum muito importante, no  mesmo?
- Certamente - concordou sir Jarvis -, mas o elo mais importante
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vai ser voc estar casada com o pupilo do duque, um jovem que,
segundo ouo dizer,  muito estimado pelo tutor, que se preocupa com ele
desde os tempos de escola.
-  verdade - concordou Claribell. - E, apesar de Lucien ter um certo
receio dele, no h dvida de que o estima e respeita muito.
- Como a maioria das pessoas! - afirmou sir Jarvis. - Minha querida, o
seu futuro vai ser exatamente como planejei. Voc  uma garota de sorte!
Claribell parou de se olhar no espelho e aproximou-se do pai. Levantou o
rosto e ele ficou admirando-a como se fosse uma deusa.
- vou gostar de ser viscondessa! - disse a moa, triunfantemente.
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CAPITULO II

Olhando  sua volta, e vendo que aquela sala de jantar mais parecia ser
parte de algum museu, o duque teve que admitir que sir Jarvis Stamford,
sem dvida, vivia em grande estilo.
No esperava que Stamford Towers fosse to grande, nem que estivesse
recheada de preciosidade e decorada com tanto bom-gosto.
No vestbulo, entretanto, havia uma quantidade desnecessria de criados e
o seu valete de quarto, certamente, contar-lhe-ia mais tarde, que l para
dentro havia mais um verdadeiro exrcito de empregados.
Observou os que haviam sido convidados para o jantar. Eram, sem exceo,
pessoas importantes e sir Jarvis se comportava como um anfitrio
irrepreensvel.
Passar uns dias em casa de algum que mal conhecia era um precedente
nico, e o duque percebeu, pela maneira efusiva com que sir Jarvis o
havia recebido e pela preocupao que parecia demonstrar em que tudo
corresse bem, que a estada seria indubitavelmente das mais confortveis.
Ao ver Claribell, percebeu a paixo de Lucien. Sem dvida nenhuma, ela
era a jovem mais encantadora que jamais vira.
Apesar disso, no seu papel de tutor, tinha a obrigao de ser objetivo e
continuava considerando Lucien ainda muito jovem para o casamento.
O visconde precisava de uma moa com qualidades excepcionais,
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que o ajudasse a melhorar como pessoa, a firmar seu carter e que o
afastasse das ms companhias.
"Mas tudo isso", pensou o duque friamente, "ser muito difcil para uma
moa to jovem quanto Claribell".
Antes de vir a Stamford Towers, o duque ficara sabendo que, por estar de
luto pela morte da me, miss Stamford no fora apresentada  corte no ano
que se passara, tendo que esperar pela atual temporada para debutar e
maravilhar toda a sociedade com sua luminosa beleza.
Por isso, era compreensvel que Claribell no tivesse o acanhamento e a
insegurana normal de uma debutante. Sendo mais velha que as outras, j
se comportava com maior naturalidade.
Sua aparncia segura, porm, no a impedia de parecer fresca e jovem como
uma gota de orvalho.
O vestido branco, carssimo, era exatamente o que uma moa da sua idade
devia usar. Tinha fitas azuis que se cruzavam abaixo do busto, caindo
suavemente pelas costas e que eram da mesma cor dos olhos dela.
Durante o jantar, os pratos servidos em baixela de ouro, se sucediam
ininterruptamente. Os vinhos eram excelentes e no havia dvida de que
sir Jarvis tinha um chefe de cozinha do mais alto gabarito.
Pelo menos estava bem claro que Claribell no pretendia casar-se com
Lucien por dinheiro, refletiu o duque, lembrando-se, no entanto, que o
sr. Middleton lhe dissera que todas as jovens tinham uma ambio social e
que, quanto melhor o ttulo, melhor a presa.
O secretrio do duque tinha insinuado tambm que existira um pretendente
importante  mo de miss Stamford. Depois de fazer umas investigaes
discretas no White's Clube, o duque acabara por descobrir que o tal
pretendente fora o duque de Dorset.
J o encontrara vrias vezes e tinha um timo conceito dele. Era um jovem
srio e muito estimado.
O duque, ficara sabendo tambm que o jovem mudara de ideia, casando-se
com uma moa que preferia o campo a Londres e cujo pai era proprietrio
das terras que confrontavam com as dele.
"Foi sensato", pensou o duque.
No entanto, ficara intrigado. Teria havido alguma razo oculta para que o
duque desistisse de cortejar a encantadora Claribell?
O jantar continuava e o duque via Lucien olhar para a sua jovem anfitri
com olhos apaixonados, e concluiu que talvez estivesse sendo
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exigente demais em negar uma permisso imediata para que seu pupilo
pudesse cortejar a linda moa.
Durante todos os anos em que provara ser um soldado brilhante, e nos
subsequentes anos de paz, o duque aprendera a julgar as pessoas
rapidamente e a confiar em sua intuio.
Era estranho e no tinha nenhuma razo palpvel para tal, mas desta vez
sua intuio lhe dizia para ter cuidado e que as coisas no eram como
pareciam ser.
No fazia a mnima ideia do porqu desses seus pensamentos. Era apenas um
pressentimento, como j os tivera na Espanha e na Frana, quando ele e
seus homens enfrentavam algum perigo e tinham que se precaver.
"Estou sendo ridculo", pensou, passando a se concentrar na conversa da
senhora que tinha  sua direita. Era uma mulher surpreendentemente bela e
inteligente.
Quando as senhoras se retiraram da sala de jantar, os homens ficaram
saboreando seus vinhos do Porto.
O tema da conversa eram os cavalos, porque, alm do duque e de sir
Jarvis, estavam ali presentes outros importantes proprietrios de cavalos
de corrida.
Falavam sobre suas vitrias e ambies, o que era muito interessante para
o duque. Teria relutado em sair dali, se no percebesse que Lucien estava
aflito para faz-lo-e sir Jarvis pronto a colaborar, de tal forma a
deixar o jovem visconde em paz com Claribell.
No imponente salo, cheio de quadros que o duque adoraria ter em sua
coleo particular, havia mesas de jogo, sofs confortveis para quem
preferisse conversar ou escutar uma das convidadas que estava ao piano,
tocando como uma verdadeira profissional.
O duque viu Lucien gravitando  volta de Claribell, e, como no os queria
atrapalhar, dirigiu-se ao terrao.
O sol morria gloriosamente no horizonte, dando uma luminosidade belssima
aos velhos carvalhos do parque.
Ouviu sir Jarvis e outros convidados sentando-se para jogar, mas, como
no tinha vontade de participar daquela atividade, resolveu dar uma volta
pelo jardim.
Foi caminhando pelo gramado, reparando que o jardim parecia perfeito
demais para ser verdadeiro, e imaginando quantos jardineiros trabalhariam
ali.
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"Deve custar um bom dinheiro a sir Jarvis", pensou o duque, anotando
mentalmente que tinha que descobrir de onde vinha tanto capital.
O convite para Stamford Towers tinha chegado to rapidamente que no
tivera tempo para obter todas as informaes que queria.
Ainda havia muitas perguntas a responder, antes que permitisse a Lucien
fazer o pedido de casamento.
Foi andando, passando entre cercaduras de arbustos, impecavelmente
aparadas, at chegar a alguns degraus que iam dar junto a uma cascata.
Circundando o lago que se formava, havia um canteiro de flores. Era to
bonito que o duque resolveu subir. No topo, seguia um atalho. O aroma das
flores perfumava todo o ar.
Tudo aquilo era to lindo que mal podia acreditar que sir Jarvis tivesse
planejado aquele jardim sem ajuda de um profissional. De qualquer forma,
era um ponto a favor para o carter de um homem que apreciava tamanha
beleza.
O duque continuou pelo atalho, chegando at onde os arbustos davam lugar
a um pinheiral. Ali, o caminho se tornava mais agreste se insinuando
entre as rvores. Atravs dos ramos, via-se o vermelho e dourado dos
ltimos raios do sol.
Como Stamford Towers ficava num lugar alto, e aquela parte do terreno era
mais elevada ainda, achou que se andasse mais um pouco teria uma bonita
vista. Seguiu at onde as rvores formavam estranhos recortes contra o
cu.
No tinha se enganado. No fim do pinheiral, o terreno tinha um declive
muito pronunciado e a vista sobre o vale era maravilhosa.
O duque ficou olhando e subitamente percebeu que no estava sozinho. Um
pouco  direita, sentada num tronco cado, via-se uma figura esbelta. O
duque estava oculto pelas rvores e percebeu que a garota no notara sua
presena.
 primeira vista, pensou que devia tratar-se da filha de algum
trabalhador, ou talvez uma empregada da casa.
Usava um vestido de algodo cinza que parecia um uniforme e estava
inclinada para a frente, como se estivesse contemplando a vista.
O duque ficou aborrecido por no estar sozinho como gostaria e achou que
o melhor que tinha a fazer era voltar pelo caminho por onde viera.
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Entretanto, naquele momento, a garota, percebendo a presena do estranho,
levantou o rosto.
Tinha uns grandes olhos negros, um rosto mido e plido. O duque percebeu
imediatamente que se enganara. No era certamente uma empregada, mas sim
uma jovem educada e de um encanto fora do comum.
No momento em que olhou para ela, a moa exclamou:
- Que maravilhoso que voc ! Tal como eu imaginei, quando pude apenas
distinguir seu vulto.
Aquelas palavras deixaram o duque boquiaberto, mas, antes que pudesse
dizer algo, a moa continuou:
- Desculpe-me... eu peo... desculpe-me. No devia... ter falado... desta
maneira... mas fiquei to surpresa... ao v-lo aqui.
O duque aproximou-se do tronco cado e a moa se levantou, fazendo uma
ligeira e elegante cortesia.
- Voc certamente sabe quem sou - disse o duque. - Ento  justo que me
diga quem voc .
- No  preciso.
O duque levantou as sobrancelhas, intrigado, e sentou-se no tronco.
- Desculpe se interrompi seu momento de comunicao com a natureza -
prosseguiu ele. - No h dvida de que  um lugar muito lindo para ser
desfrutado ao pr-do-sol.
Ela olhou para o vale  sua frente.
-  to bonito que, quando venho para c, julgo estar vendo o pr-do-sol
na ndia - disse ela.
- ndia? - perguntou o duque. - Voc j esteve l? Ela concordou com a
cabea.
- Fale-me sobre a ndia - pediu ele.
Era o misto de ordem e splica que muitas mulheres achavam irresistvel.
Ela hesitou antes de responder:
- Acho... que  melhor... eu ir embora.
- Por qu? - indagou o duque.
- Porque... - comeou ela, parando em seguida. - Porque... no quero...
falar... no assunto.
- Deve falar - contradisse o duque. - Voc no pode ir embora assim, sem
ao menos me explicar por que viu apenas o meu vulto.
Ela deu um leve sorriso, antes de responder:
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-  mais ou menos o que uma pessoa v, quando se olha de uma janela
distante.
- Ento voc estava me espiando quando cheguei! - brincou o duque.
- Estava; e pelo balastre da escada do segundo andar tambm vi voc
entrando na sala de jantar - acrescentou a jovem.
O duque usava condecoraes em seu traje de noite, porque um dos
convidados para o jantar de sir Jarvis era um prncipe qualquer, meio
desconhecido. Olhando para uma delas em especial, a moa exclamou:
- Essa foi ganha por um ato de bravura!
- Como  que voc sabe? - perguntou o duque.
- Meu pai pertenceu  Brigada de Guardas - explicou a pequena.
- Qual era o nome de seu pai?
Mais uma vez, ela desviou o olhar para o pr-do-sol e no respondeu.
- Se voc no me disser o nome de seu pai - insistiu o duque, passado um
momento -, diga-me ao menos o seu. Acho muito desagradvel conversar com
algum completamente annimo para mim.
- J que est to interessado,  melhor... ficar sabendo que eu sou. como
as sombras do passado.
- Sombras do passado!
- Exatamente! Por favor, Alteza, d-me sua palavra de honra... de que no
vai dizer a ningum... que me viu.
- Seria muito difcil dizer a algum que vi uma moa que no tem nome e
que a nica coisa que fiquei sabendo durante a nossa conversa foi que ela
esteve na ndia.
- Mas... no pode dizer isso! - disse a jovem, aflita. - Ficariam logo
sabendo... que era eu... e que sa de casa... para v-lo.
- Dou-lhe minha palavra de honra de que no direi a ningum que nos
encontramos - prometeu o duque -, se em troca voc satisfizer minha
curiosidade e disser quem voc  e por que est aqui.
A jovem olhou para o rapaz, com seus grandes olhos muito expressivos, e
ele percebeu que havia insegurana no olhar dela.
De repente, como-se alguma coisa lhe tivesse dado confiana, disse com
simplicidade:
- Meu nome  Giona.
-  um nome grego!
- Voc  muito perspicaz!
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- No  nada disso. Eu sempre fui bom aluno em grego, quando estava em
Oxford e estive na Grcia h dois anos - explicou o duque.
- Ficou emocionado? Sentiu como se os deuses ainda estivessem l e que a
luminosidade daquela terra no mudou desde os tempos em que Homero
escreveu sobre ela? - indagou a jovem, cheia de entusiasmo.
- Claro! - respondeu ele.
- Eu achei... que voc iria sentir tudo isso - disse ela, num sussurro.
- Agora conte-me por que est aqui e qual a sua relao com Stamford
Towers - pediu o rapaz.
A expresso que vira nos olhos dela, quando falava da Grcia, agora
mudara completamente.
- Voc no deve... fazer essa pergunta - disse rapidamente. J lhe disse
que... sou como a sombra do passado.
- Do passado de sir Jarvis?
- Por favor... - implorou ela.
- Se a sua inteno era dizer apenas meias palavras para me encher de
curiosidade - disse o duque -, ento conseguiu o que queria, Giona.
- Voc prometeu... esquecer que ns... nos conhecemos.
- No prometi nada disso! Disse apenas que no falaria de voc a ningum
e esteja certa de que nunca quebro minha palavra.
Ela sorriu.
- Acredito.
- Ento seja um pouco mais explcita e simptica do que tem sido at
agora.
- Voc est... dificultando tudo... - disse ela. - Apesar disso e embora
eu... ache que estou sonhando...  maravilhoso estar aqui sentada...
conversando com voc. Quando fiquei sabendo que vinha para c passar uns
dias... mal pude acreditar.
- Voc j tinha ouvido falar de mim antes?
- J. Papai se interessava pelas... suas vitrias nas corridas de cavalo
e h muitos anos ele conheceu seu pai, num jantar do Regimento.
- O seu pai falava sobre mim? Giona assentiu com a cabea.
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- Como morvamos no estrangeiro, ele se interessava por todos que
conhecera antes de... deixar a Inglaterra.
- Por que vocs foram viver no estrangeiro? Ela no respondeu.
- Conte-me mais coisas sobre seu pai.
- Que adianta ficar falando nele... se j... morreu?
Havia um tremor na voz de Giona, quase um soluo, ela virou o rosto para
que o duque no visse as lgrimas que brilhavam em seus olhos.
- Seu pai foi morto na guerra? - perguntou o duque, gentilmente. Ela
sacudiu a cabea.
- No... ele morreu... e mame tambm... de febre tifide, h... dois
anos... em Npoles.
- Lamento.
- S queria... ter morrido... junto... com eles! - desabafou a garota.
Aquele lamento parecia vir do fundo de sua alma.
- Voc no pode falar desse jeito - advertiu o duque. -  muito bonita e
a vida  muito boa, apesar de ter seus altos e baixos.
- Para mim... tem sido muito m. Estou no mais profundo desespero, e no
tenho como sair dele!
- Por qu? - indagou o rapaz.
Houve um silncio, aps o qual o duque perguntou:
- Seu pai deixou voc sem dinheiro e foi forada a trabalhar para viver?
O rapaz achava que essa devia ser a explicao para que a tivesse
confundido com uma criada. O vestido de algodo cinza era do tipo que
elas costumavam usar.
Como se acabasse de ser insultada, Giona respondeu com irritao:
- Papai se preocupava comigo! Ele nunca... nunca teria me deixado... sem
um tosto! Na verdade, me deixou... uma fortuna!
O duque levantou as sobrancelhas, espantado.
No pde evitar de olhar novamente para o vestido que ela estava usando.
Reparou tambm que os sapatos pretos de Giona estavam bem gastos nas
pontas.
- Pare de fazer perguntas - pediu ela, subitamente. - Voc est fazendo
com que me sinta... infeliz... e obrigando-me a lembrar... o passado...
que tenho tentado... esquecer.
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Havia algo pattico na maneira como ela falava, mas antes que o duque
pudesse responder, a jovem acrescentou rapidamente:
- No entendo... por que comeamos... com esta conversa... e embora tenha
sido... maravilhoso poder falar com voc... por favor... v embora.
- No tenho a menor vontade de fazer isso - afirmou o duque.
- Mas voc tem que ir... tem que ir! - insistiu Giona. - Alm do mais,
podem dar... pela sua falta.
- Se derem, inventarei uma boa justificativa para minha ausncia.
- Ento... eu vou - decidiu ela. - Por favor-... se quer... ficar. . no
olhe para mim... enquanto eu me afastar.
Ela gaguejou ao dizer aquelas palavras e o duque olhou para ela,
intrigado.
- Primeiro tem que me dar uma razo para isso - disse ele. Pensou que
Giona fosse recusar e acrescentou:
- Do contrrio, ficarei novamente cheio de curiosidade e no hesitarei em
olhar para voc, enquanto desaparece por entre as rvores.
- Voc... consegue sempre o que... quer? - interpelou ela.
- Invariavelmente! - admitiu o duque.
- Ento deve... ser muito mau para voc, embora ache que seja inevitvel,
uma vez que  to importante e to esperto.
- Est me elogiando? - indagou o rapaz. Ela sacudiu a cabea.
- A opinio de algum to insignificante quanto eu, certamente ser
anulada com um simples gesto da mo do nobre duque.
Ele desatou a rir.
- Agora est me provocando de propsito. Vamos voltar  pergunta que voc
no respondeu. Por que no devo olhar para voc enquanto se afastar, se 
isso o que quer que eu faa?
No olhar de Giona apareceu um brilho especial, como se ela estivesse
achando divertido aumentar ainda mais a curiosidade dele.
- Se quer mesmo saber a verdade...  porque eu... desabotoei as costas do
meu vestido... e no seria prprio me afastar com voc olhando, antes de
aboto-lo de novo.
- Por que fez isso? - indagou o duque.
- Ainda... interessado em ouvir... a verdade?
- S, abe muito bem que sim. Est me deixando cada vez mais intrigado!
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- Ah, esquea! Vossa Alteza deve ter coisas mais importantes em que
pensar.
- No seria to intrigante se no tivesse sido to inesperado disse o
duque.
Giona sorriu, com doura.
- Talvez seja verdade. Papai pensaria a mesma coisa. Talvez fosse por
isso que era to divertido estar com ele.
- Diga por que desabotoou seu vestido.
- Estou tentando imaginar se voc ficar chocado, surpreso ou desgostoso.
- Eu lhe direi quando ouvir sua explicao.
- Muito bem - disse Giona, suspirando. - Alguns dos ferimentos das minhas
costas esto sangrando e quando tenho... o vestido apertado... di muito
para tirar. Alm disso, o ar da tarde ... refrescante.
O duque olhou para ela, incrdulo.
- O que est dizendo?
- Estou dizendo que fui espancada recentemente! - respondeu Giona, num
desafio. -  uma coisa que acontece frequentemente desde que vim para c.
Agora entende por que desejaria ter... morrido com meus pais... em
Npoles?
No conseguia evitar as lgrimas e,  medida que lhe caam pelo rosto,
limpava-as com a mo, irritada.
- Desculpe-me por falar desta maneira - acusou -, mas... h dois anos...
que no falo com um... homem como voc.
Respirou fundo, antes de continuar:
- Trouxe-me de volta a felicidade... que eu julgava... perdida... e no
sei se devo agradecer a Vossa Alteza... ou aos deuses. que o trouxeram
at aqui esta noite.
- Quem bateu em voc?
A pergunta foi incisiva, feita num tom autoritrio.
- A mesma pessoa que me trouxe... de Npoles... para c. que difamou
minha querida me... e que me odeia! - desabafou a jovem, baixinho.
No foi preciso dizer mais nada, para que o duque soubesse a resposta.
- Presumo que est se referindo a sir Jarvis - disse o rapaz.
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Giona permaneceu em silncio, mas ele julgou perceber um ligeiro
movimento afirmativo dela, feito com a cabea.
- Por qu? Que ligao existe entre vocs? - indagou o duque.
- Voc me deu... sua palavra que... nada do que dissemos aqui... seria
revelado a algum... Se falar... ele me matar! De qualquer jeito...  o
que vai acabar fazendo... com os maus tratos que me faz... apenas o
sofrimento seria abreviado.
O duque pegou a mo da jovem.
- Olhe para mim, Giona.
Era uma ordem e, lentamente, ela virou o rosto para ele. Estava coberto
de lgrimas e era to lindo que o duque achou que era muito mais grego
que ingls.
- Confie em mim - disse suavemente. - Voc j me disse muita coisa, por
isso conte-me a histria toda e juro que de alguma forma a irei ajud-la.
Sentiu os dedos dela apertando os seus, como se subitamente tivesse
encontrado uma tbua de salvao. Depois disse, desanimada:
- Mesmo que lhe conte... no poder fazer muita coisa.
- Como pode ter essa certeza?
- Ele... nunca me deixar... ir embora... No estou sendo histrica, nem
exagerada, quando digo... que ele quer... que eu morra! Assim... como
papai j morreu... o segredo dele ficaria guardado para sempre!
O modo de ela falar mostrou ao duque que estava dizendo verdade. Era um
bom juiz do carter das pessoas e sabia quando um homem ou uma mulher
estavam sendo sinceros, fingindo ou exagerando.
 Comece do princpio e me conte a histria toda - pediu o rapaz. - No
posso comear do princpio - respondeu Giona - porque... nem eu mesma o
conheo.
Quem era seu pai?
- Irmo de tio Jarvis.
- Ento seu sobrenome  Stamford.
-  , mas no estou autorizada a us-lo.
- Por que no?
No-   sei bem... ao certo. Papai usava muitos nomes, enquanto estavamos...
viajando. Sei que tinha qualquer coisa a ver com
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tio Jarvis, que fazia papai mudar de pas em pas, com uma falsa
identidade.
- E sua me ia com ele?
- Claro que mame ia com ele. Ela o amava. Eles se amavam. Ela teria
subido o Himalaia descala, se papai lhe tivesse pedido.
- Mas ele no tinha dinheiro - arriscou o duque.
- Papai tinha muito dinheiro - afirmou Giona. - Ele era muito rico, mas
creio que o dinheiro que gastava vinha de tio Jarvis. Ele vivia esperando
as remessas, nos bancos dos pases que visitvamos. Vivamos com muito
conforto e muito felizes.
- Mas no voltaram para a Inglaterra?
- Eu sabia que no podamos. Papai s vezes ficava nervoso, com o
pensamento distante. Mame e eu sabamos que ele estava sentindo falta
dos amigos, das caadas e de tudo o que gostava de fazer antes de deixar
a Inglaterra.
- O que aconteceu? - perguntou o duque.
- Tivemos que voltar  Europa. Ficamos na Grcia, at que papai decidiu
que seria divertido voltar de novo para a Itlia. Logo que chegamos a
Npoles, porm, houve um surto de febre tifide!
O duque sentiu os dedos de Giona tremerem de novo, antes de ela
continuar:
- Foi... horrvel! Todo o mundo... ficando... to mal e antes que
pudssemos... fugir da... cidade, primeiro papai... e depois mame
sucumbiram.
- Mas voc sobreviveu! - exclamou o duque.
- Infelizmente! - murmurou ela.
Houve um longo silncio, antes de o duque perguntar:
- O que aconteceu depois?
- Fiquei to desnorteada... quando papai e mame morreram  que me deixei
ficar na Villa que tnhamos alugado. O banco que tratava dos assentos de
papai escreveu para a Inglaterra, contando a tio Jarvis o que acontecera.
Foi assim que ele tomou conhecimento... de meu paradeiro.
- E presumo que foi busc-la. Giona fechou os olhos.
- No... quero... falar... sobre isso.
- S posso ajudar voc, se me contar tudo o que aconteceu.
- J lhe disse... que no pode... fazer nada... ningum pode
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ajudar. Mas se quer ouvir... o resto desta estria miservel, eu... vou
contar.
- Foi o que lhe pedi.
- Tio Jarvis chegou e... me disse...
Ela parou e o duque percebeu que era muito difcil para ela completar a
frase. Quando falou, foi num sussurro.
- Ele... me contou que... papai e mame no... eram casados que eu era
filha... ilegtima, ou, como ele disse... uma bastarda!
Tirou a mo que repousava entre as mos do duque, dizendo furiosa:
- No  verdade! Eu sei que no  verdade! Papai fugiu com mame, porque
o pai dele queria que se casasse com uma aristocrata, como fez tio
Jarvis.
- E ele se recusou?
- Ele estava noivo da filha de um nobre, quando conheceu mame.
- E se apaixonaram? - perguntou o duque.
- Eles se apaixonaram profundamente e como papai sabia que meu av no
concordaria com o casamento, convenceu mame a fugir com ele. Mas meus
pais eram casados... eu sei que eram!
- Deve haver um registro e no deve ser difcil encontr-lo.
- Eu no... tenho nenhuma possibilidade... de fazer isso.
- Eu posso mandar procurar.
- Pode? Ou melhor, poderia fazer isso?
-  outra promessa que lhe fao.
- O pai de mame era o pastor de uma pequena parquia protestante em
Hampshire. Eu sei que no foi ele quem os casou, porque seu superior
hierrquico era amigo de meu av paterno. Mame teve medo de que o pai
pudesse vir a ter problemas. Ento sei que eles se casaram em Dover.
- Por que acha que foi assim?
- Porque para fugir quela complicao toda do rompimento do noivado,
eles foram para Frana.
- Aconteceram muitos problemas?
- Creio que sim. Alis, tenho certeza, porque enquanto estavam na Frana,
tio Jarvis foi visit-los e disse que papai tinha que ficar fora da
Inglaterra, por causa do escndalo que tinha provocado... e havia ainda
outra razo.
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Giona fez um gesto desanimado com as mos.
- Mas isso  o que no sei. Papai nunca me contou, mas lembrando certas
coisas que mame disse, sei que foi a partir da que tio Jarvis comeou a
mandar muito dinheiro e meus pais comearam a trocar de nome, quando iam
de um pas para outro.
- E o que aconteceu com todo esse dinheiro?
- Tio Jarvis me disse que eu era... ilegtima e que ele estava...
envergonhado... e desgostoso... com a minha simples existncia, Disse
tambm que eu no... tinha direito a nada que papai deixara e que, pela
lei, tudo passaria a pertencer a ele.
- No deve ser verdade. Quer voc seja ou no filha ilegtima, se seu pai
fez um testamento a seu favor, o dinheiro  seu.
- Como... poderei provar? Tio Jarvis me trouxe com ele para a Inglaterra
e disse que eu teria que ficar morando aqui em Stamford Towers, mas que
ningum... poderia me ver... e se eu desse nas vistas... ele me
bateria... at eu ficar inconsciente.
- Por que ele lhe bateu hoje?
- Foi ontem... pouco antes... de voc... chegar. Estpida mente, fui ver
a mesa da sala de jantar. Nunca tinha visto a baixela de ouro em uso e os
arranjos de flores e as orqudeas que vieram da estufa... mas tio
Jarvis... me pegou.
- E bateu em voc!
- Acho que ele fica feliz cada vez que tem um pretexto para isso. Deu
instrues aos criados para praticamente me matarem de fome para que eu
fique muito fraca... e morra para ele se... ver livri de mim!
O duque ia dizer que no conseguia acreditar que algum homem pudesse ser
to mau e desumano, quando Giona, emocionada por tudo quanto tinha
revelado, escondeu o rosto com as mos, inclinando-se para a frente.
Nesse momento o duque pde ver as marcas de espancamento aparecendo entre
o tecido rasgado nas costas de Giona.
Algumas j estavam cicatrizando, mas outras ainda sangravam, provando que
eram recentes.
Ficou pasmado. Mal podia acreditar no que via. Depois, sentiu uma onda de
raiva, queimando-o por dentro.
Era o mesmo sentimento que experimentara nos campos de batalha em
Portugal, quando, ao ver um de seus soldados ferido ou mutilado,
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sentia mpetos de matar com as prprias mos aqueles que tinham cometido
tamanha atrocidade.
Agora percebia por que seu instinto lhe dizia que havia algo errado com
sir Jarvis e que tinha que salvar Giona.
Reparou no s nas marcas mas tambm na curvatura da espinha da moa. Os
ossos estavam to proeminentes, que demonstravam claramente seu estado de
desnutrio.
Era muito importante convenc-la de que a confiana que tinha depositado
nele no seria em vo, e que encontraria um modo de livr-la de toda
aquela desgraa.
- Oua bem o que vou lhe dizer, Giona - pediu o duque. Obediente como uma
criana, ela levantou o rosto e ele viu que,
apesar das lgrimas, ela estava controlada. Pegou novamente na mo dela.
- Quero que confie em mim - disse, tranquilamente. - Prometo pela minha
honra, novamente, que vou salvar voc e provar, se isso a deixa feliz,
que seus pais eram casados.
Giona olhou para ele incrdula, por uns momentos. Depois, seus olhos
comearam a brilhar, como que refletindo os ltimos raios da luz do sol
que desaparecia no horizonte.
- Logo que o vi - disse ela -, soube, misteriosamente, sem entender, que
voc tinha sido enviado... para me ajudar.
Sempre segurando na mo dela, o duque disse:
- Voltarei para a casa agora, mas estarei pensando, no que poderemos
fazer. Voc tem que se encontrar comigo novamente, amanh ao fim da
tarde, neste mesmo lugar.
- Amanh  noite vai haver um baile - lembrou Giona.
- Tanto melhor! Ser mais fcil a gente se ver, sem levantar suspeitas.
- Eles podem desconfiar de alguma coisa... se voc desaparecer Por muito
tempo. Afinal de contas...  o convidado de honra.
- Discordo. Acho que o mais importante convidado  meu pupilo. Voc sabe
por que estamos aqui, no?
- Claribell quer se casar com ele - disse a jovem.
- Se eu der permisso - acrescentou o rapaz.
- Pelo que tenho ouvido dizer, isso  praticamente um fato consumado. -
Pelo contrrio. Deixei bem claro que estudaria o assunto com
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todo cuidado. Agora, posso lhe dizer categoricamente que no existe a
mais leve hiptese de a minha resposta ser outra exceto no!
-  sensato. Ela nunca o faria feliz - concordou Giona.
- Como  que sabe? - ele indagou, ansioso.
-  uma pergunta... que eu preferia no responder.
- No pretendo obrig-la - disse o duque. - Agora s estou preocupado com
voc.
- Eu... Eu no queria envolv-lo... nos meus... problemas. Nunca
pensei... que o conheceria... a no ser...
- do alto de uma janela - acrescentou o duque, sorrindo. Mas ns nos
encontramos, Giona, e acho que foi o destino.
Percebeu que ela estava tremendo e nada dizia, ento perguntou:
- O que est assustando voc?
- Estava s pensando... que tio Jarvis iria ficar furioso... se
soubesse... que falei... com voc... Quanto mais... se descobrisse... o
que lhe contei.
- Ele no tomar conhecimento de nada - acalmou-a o duque.
- Por isso temos que ser cuidadosos.
Levantou-se e ajudou Giona a se levantar, tambm.
- Tenho que voltar agora, e como voc deve ir por outro caminho, no h
razo para que algum fique sabendo que estivemos juntos.
- Espero... que no - murmurou Giona. - Os criados no gostam de andar no
bosque assim que anoitece... Acham que h bruxas por a... Depois,
ningum jamais repara na minha falta.
- Voc jantou? - indagou o duque. A jovem deu uma risada.
- Posso... ou no encontrar alguma coisa para comer no meu quarto. No
tenho autorizao para ir  cozinha quando h convidados, porque temem
que os criados dos hspedes me vejam.
- Voc est to magra! - comentou o duque, preocupado com a fome que ela
pudesse estar sentindo.
Giona encolheu os ombros.
- Comi extraordinariamente bem, enquanto meus pais estavam vivos... Eles
achavam que cozinhar era uma arte... Agora  difcil para mim contentar-
me com o resto das refeies dos criados... que  tudo... o que tenho
comido aqui... Mas no tenho... outra alternativa.
- Tudo ser diferente no futuro - prometeu o duque. - Esta
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noite, quando for para a cama, Giona, lembre-se que o porvir ser belo e
luminoso, como o sol que nasce toda manh. - Eu... eu gostaria tanto...
de acreditar - balbuciou a moa.
- Se voc reza, e pressinto que o faz, pea que a noite e as trevas
passem depressa - aconselhou o duque.
- Como pode ser to compreensivo? - indagou Giona. - Era o tipo de coisa
que papai me diria, tambm.
- E estou certo de que seu pai haveria de gostar que voc acreditasse que
estou aqui para ajud-la.
- Eu quero acreditar... mas tenho... medo!
- De seu tio? Ora, vamos, no pense mais nele.
Giona respirou fundo e o duque percebeu que estava pensando no quanto
sofrera na vspera, e na fria do tio se viesse a saber que ela revelara
ao rapaz tantos segredos.
- Voc prometeu confiar em mim - disse o duque, suavemente.
- Eu confio! Juro que confio! - assegurou Giona. - E agradeo... agradeo
muito... ter me trazido a esperana... quando tudo o que eu tinha era
escurido e desespero.
- Isso vai passar e voc logo esquecer o que sofreu. Entretanto, temos
que ser muito cautelosos - recomendou gravemente o duque.
Ela assentiu com a cabea.
O rapaz largou a mo de Giona e, como no houvesse necessidade de mais
palavras, voltou pelo caminho por onde viera, atravs do pinheiral.
Chegando  cascata, tomou outra direo, a fim de chegar ao terrao por
outro lado.
Agora ia andando devagar, tranquilamente, como se estivesse envolvido em
seus prprios pensamentos. Assim que chegou ao gramado junto do terrao,
percebeu que algum esperava por ele na sacada de pedra.
- A est voc! - exclamou sir Jarvis, assim que o duque comeou a subir
a escada. - Estava imaginando o que lhe teria acontecido!
- Estive admirando seu jardim, Stamford - explicou o duque. 
absolutamente maravilhoso! Voc tem que me dizer quem o desenhou.
Sir Jarvis desatou a rir.
- Fico satisfeito que tenha gostado. Ser que pareceria presuno
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de minha parte dizer que fui eu mesmo que o planejei?  uma das coisas
que mais me orgulho de ter feito!
O tom de voz do homem revelava satisfao.
O duque, entretanto, percebeu muito bem que sir Jarvis estava mentindo.
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CAPITULO III

Giona no conseguiu dormir aquela noite achando impossvel acreditar no
que lhe tinha acontecido. Valerian tambm, embora com todo o conforto do
seu leito de hspede no castelo, no teve bons sonhos.
Para eliminar qualquer suspeita, o duque de Alverstode foi
particularmente amvel com sir Jarvis e, quando chegou a seu quarto, onde
um criado o aguardava, despiu-se em silncio.
S quando o criado j se retirava do quarto, levando as roupas do patro
no brao, o duque disse:
- Digam-me qual  sua opinio a respeito deste lugar, Hibbert. Estou
interessado em conhecer seu ponto de vista.
O homem olhou para ele, intrigado, sabendo muito bem que o duque no lhe
faria semelhante pergunta sem ter uma boa razo oculta.
Hibbert fora ordenana do duque no Exrcito e em muitas ocasies fora
extremamente til, obtendo informaes preciosas, que, de outra forma,
no cairiam em mos dos ingleses.
Apesar do seu nome britnico, Hibbert era uma mistura de vrias
nacionalidades. Por isso falava outras lnguas, e seus conhecimentos em
francs e portugus tinham sido de valor incalculvel.
Neste momento, hesitava antes de responder:
- Sir Jarvis, Alteza, emprega muitas pessoas, mais do que j vi em
qualquer outra casa que tenhamos visitado recentemente. De qualquer
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forma, como Vossa Alteza pediu minha opinio, lhe diria que suspeito no
serem eles felizes.
- Por que no? - indagou o duque, intrigado.
- No estou bem certo, Alteza. No entanto, embora possa parecer ridculo,
pressinto que todos temem alguma coisa.
- No vejo ridculo nenhum dessa suposio - disse o duque,
- Quero que tente descobrir de que  que eles tm medo e tudo o mais
que julgue ser interessante para mim.
Viu o brilho de alerta nos olhos de Hibbert, tal como um cachorro
terrier quando fareja um rato.
Pensava, frequentemente, que tal como ele prprio, Hibbert devia achar
aqueles tempos de paz muito montonos.
Era verdade. A superficialidade da alta sociedade, as festas que se
sucediam, eram todas iguais. As mulheres eram falsas e vaidosas e tudo
isso o enfastiava, tornando-o cada vez mais ctico.
Agora, saber que no s tinha que salvar Giona como tambm enfrentar
um poderoso inimigo, fazia-lhe ressuscitar um sentimento que lhe era
desconhecido desde os tempos em que desafiava Napoleo.
Relembrou tudo quanto a jovem lhe dissera e traou mentalmente seus
planos.
No ia ser fcil descobrir por que sir Jarvis tinha pago tanto dinheiro
ao irmo para que este permanecesse no estrangeiro, a no ser que
Middleton conseguisse descobrir algum escndalo que houvesse motivado tal
atitude.
Por mais que tentasse, no conseguia lembrar-se de mais nada. Tinha
somente uma vaga ideia de ter ouvido qualquer comentrio pejorativo
relativo a sir Jarvis.
- Deve ter sido h muito tempo - disse a si mesmo.
Lembrou-se ento do horror que sentira ao ver as marcas de espancamento
nas costas de Giona e prometeu a si mesmo, nem que fosse a ltima coisa
que faria na vida, que haveria de salv-la de tamanha crueldade e
agonia...
A dor que ela estava sentindo se refletia em seu rosto e o duque desejou
dar a sir Jarvis o mesmo tratamento que ele infringira  frgil jovem,
batendo nele at que ficasse inconsciente.
Ao ver o cruel homem no terrao, o duque Valerian sentiu um dio enorme e
somente devido aos anos no Exrcito, em que desenvolvera
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sua capacidade de autodomnio,  que o duque respondeu a sir Jarvis,
elogiando-lhe o jardim, a casa e a filha.
O duque desempenhou seu papel de forma excelente e desejou apenas ser
capaz de continuar com a mesma habilidade para representar, sem despertar
a menor suspeita de que no era favorvel ao casamento entre Claribell e
Lucien.
No iria ser fcil convencer seu jovem pupilo de que a moa que amava era
to m e desprezvel quanto o pai.
Se bem o conhecia, quanto mais se opusesse ao casamento, mais ele ficaria
determinado a conseguir seu intento, com ou sem a aprovao de seu tutor.
" o que eu faria", pensou o duque, com um sorriso amargo. " um desafio
enorme para qualquer jovem, acreditar mais na mulher que ama do que nos
comentrios difamatrios que se fazem contra ela. "
Este era outro problema a resolver e um obstculo complicado a superar se
conseguisse provar alguma coisa contra sir Jarvis.
Da mesma maneira como costumava planejar cada movimento de suas tropas,
antes de entrarem no campo de batalha, o duque pensou nos mnimos
detalhes da ao que tinha  sua frente e muitas horas se passaram, antes
que conseguisse adormecer.
O duque tinha combinado montar a cavalo de manh cedo, antes de tomar o
caf da manh, como sempre fazia, onde quer que estivesse.
Hibbert acordou-o s sete e ajudou-o a vestir-se, em silncio, como
habitualmente.
- Uma coisa que eu gostaria de saber, Hibbert - disse ento Valerian -, e
que voc pode descobrir atravs dos criados mais antigos,  o porqu do
duque de Dorset, que estava fazendo a corte  miss Claribell h pouco
tempo, ter se desinteressado dela e ficado noivo de outra.
- Farei o possvel, Alteza - respondeu Hibbert -, mas os empregados so
muito circunspectos conosco, o que nunca aconteceu em casa alguma que
tenhamos visitado antes. Alm disso, comemos numa sala separada.
O duque levantou as sobrancelhas, espantado. Nas manses aristocrticas,
o protocolo dos empregados era ainda mais severo do que o observado na
sala de jantar dos patres.
Seria normal que Hibbert, como criado particular do duque, se
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sentasse  direita da governanta, a menos que houvesse algum criado real
presente.
De acordo com a mesma tradio, a aia de sua esposa, se fosse casado,
sentar-se-ia  direita do mordomo.
Cada empregado teria a mesma importncia que seu patro ou patroa. Em
Alverstode essa regra nunca seria quebrada, embora, para tornar o
ambiente mais interessante para seus convidados, o duque costumasse mudar
frequentemente os lugares  mesa, para que pudessem conversar com pessoas
diferentes.
- Isso  muito estranho, Hibbert! - comentou Valerian, em voz alta. -
Seja como for, veja o que consegue descobrir. Voc nunca falhou nessas
misses.
O rapaz sabia ter despertado o brio de seu criado com aquelas palavras e,
certamente, ele obteria alguma informao antes de partirem na segunda-
feira pela manh.
O desejo do duque era partir no domingo, mas Lucien lhe havia implorado
para ficarem trs noites em Stamford Towers, dizendo ansioso:
- Vai ser uma atitude justa para com Claribell e para comigo, pois, desta
forma, voc ter mais tempo para formar sua opinio a respeito de minha
amada.
O duque dera uma risada.
- Voc est fazendo com que eu me sinta como um juiz num caso de
enforcamento.
-  o que ser se no consentir em meu casamento com Claribell
- respondeu Lucien, apaixonadamente.
O duque pensou apreensivamente que iria ter muito trabalho com Lucien,
quando lhe dissesse que preferia v-lo morto a casado com a filha de sir
Jarvis Stamford.
Ao retornar do passeio, Valerian foi tomar seu caf. Subitamente, deu por
si, pensando no que Giona poderia ter comido naquela manh.
Tambm achou difcil evitar a comparao, ao ver Claribell surgir no
final da manh, com um vestido caro e lindo, enquanto Giona usava seu
feio vestido de fazenda cinzenta ordinria e sapatos gastos.
Era impossvel que Claribell morasse na mesma casa e no soubesse como a
prima estava sendo tratada. O duque achou, de repente, que o olhar suave
da rica jovem e sua aparncia primaveril eram apenas parte de uma
encenao esperta do que queria aparentar para os outros. A realidade, no
entanto, era bem outra.
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Sir Jarvis queria tanto que o duque gostasse de sua visita a Stamford
Towers que, cada minuto do dia, havia sido cuidadosamente preparado.
As senhoras no costumavam se levantar cedo. Os homens, entretanto,
depois do caf, assistiram  luta entre dois pugilistas locais.
Antes do almoo, quando as senhoras apareceram, foram visitar as
cocheiras, onde qualquer apreciador de cavalos teria ficado encantado com
os animais que sir Jarvis possua.
- Tenho dois cavalos com os quais tenciono desafi-lo no prximo ano -
disse sir Jarvis para o duque. - Talvez, juntos, possamos desafiar o
resto do mundo e ganhar os prmios sem t-los que dividir.
Pela ansiedade de sir Jarvis, o duque percebeu muito bem que ele
insinuava que no prximo ano Claribell e o visconde deveriam estar
casados.
-  uma boa ideia - conseguiu dizer o duque, sorrindo e mudando de
assunto, pondo-se a elogiar certo cavalo que estava admirando.
Depois do almoo, ao qual compareceram alguns amigos da vizinhana, houve
um concurso de hipismo no campo de obstculos de sir Jarvis, que ficava a
certa distncia da casa.
Foram at l em faetontes e breques, as senhoras com vestidos de
musselina estampada e lindos chapus, to elegantes como se estivessem
indo para as corridas reais em Ascot.
Havia um agenciador particular de apostas, que era um dos empregados de
sir Jarvis, e os lucros seriam divididos, no final do dia, entre os
apostadores.
Como era uma ideia divertida, as apostas foram altas. Os cavalos que
estavam competindo, entretanto, eram todos to bons, que o duque achou
difcil saber qual deles seria o vencedor.
Tudo aquilo teria sido muito agradvel, se o duque no detestasse seu
anfitrio mais e mais a cada momento que passava, analisando tudo quanto
ele dizia, certo de que era mentira.
No entanto, nada havia de falso nos preparativos para o baile daquela
noite. O jardim estava decorado com lanternas chinesas, luzes brilhando
entre as flores e  volta dos canteiros. Fora contratada uma orquestra
londrina, que o duque presumia ser a favorita da juventude que costumava
danar todas as noites.
- Voc deve estar se divertindo, primo - disse Lucien, enquanto subiam a
escada para trocar de roupa para o jantar.
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- Naturalmente - respondeu o duque.
Lucien seguiu-o at o quarto e quando Hibbert saiu, ele discretamente
indagou:
- Ser que ainda  muito cedo para saber se voc j tomou alguma deciso?
- Sobre o seu casamento?
- Gostaria de pedir a mo de Claribell esta noite, no jardim.
- Se eu deixar voc fazer isso - disse o duque maquiavelicamente -, ser
uma maneira muito banal de fazer as coisas.
- Banal? O que voc quer dizer com "banal"? - perguntou Lucien, sem
entender a que o primo se referia.
- Ser tudo muito bvio, meu querido rapaz: as estrelas, a lua e o fundo
musical. Vai parecer uma encenao ordinria.
- E o que h de errado nisso?
- Se voc vai pedi-la em casamento - respondeu o duque -, ou quando eu o
fizer, gostaria que fosse em circunstncias originais das quais todos ns
nos lembrssemos para o resto de nossas vidas.
Fez-se silncio e ento Lucien disse:
- Entendo onde quer chegar.
- Sempre achei que voc iria gostar de fazer algo diferente, s seu
- continuou o duque -, e no haver momento mais importante do que aquele
em que voc pedir a uma mulher que viva com voc para sempre. Ser nessa
ocasio que voc dever demonstrar sua originalidade e, evidentemente,
sua inteligncia.
Teve medo que Lucien percebesse que estava arranjando subterfgios, mas,
para seu alvio, ele aceitou muito bem a ideia.
- Voc est certo, primo Valerian - disse o jovem sorrindo. Nunca tinha
pensado nisso antes. Claribell e eu temos frequentado bailes e festas,
onde  sempre tudo igual.
- Era o que eu estava pensando - concordou o duque.
- Ento quer dizer que se eu achar um meio original para pedir a
Claribell que seja minha esposa, voc dar-me- sua autorizao?
- No disse nada disso! - respondeu o duque, rapidamente. Disse,
simplesmente, que hoje  noite seria muito cedo e muito bvio e que
gostaria de conhecer Claribell um pouco melhor, antes de decidir se ela 
a esposa apropriada para voc.
- Apropriada para mim? - repetiu o visconde, atnito. - Mas ela  a
garota mais linda de Londres!
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- E voc um dos mais estimados, atraentes e certamente o rapaz mais bem
trajado de toda a cidade - acrescentou Valerian.
O duque no olhou para seu pupilo enquanto falava, mas tinha a certeza de
que o primo estava cheio de orgulho.
Temendo estragar tudo, Valerian acrescentou depressa:
- Como ainda vai levar um certo tempo a dar o lao em sua gravata para
que fique perfeito como de costume, sugiro que v se arrumar. No seria
elegante chegar atrasado para o jantar.
O visconde deu uma pequena exclamao de horror e saiu correndo do
quarto.
Quando Hibbert tornou a entrar, a fim de calar as botas do duque,
encontrou-o sorridente.
- Alguma novidade para mim, Hibbert?
- Nada de concreto, Alteza, apenas uma conversa que escutei entre os
homens que vieram da vila para ajudar.
- Quem falava com quem?
- Um empregado que esteve aqui durante alguns anos e que  mais velho que
os outros.
- que diziam?
- Eles no sabiam que eu estava ouvindo, Alteza, mas como sabe, tenho
ouvidos muito atentos e sensveis.
O duque assentiu com a cabea e Hibbert prosseguiu:
- A conversa foi mais ou menos assim: "Fiquei sabendo que vamos ter um
casamento em breve por aqui. Ficarei aguardando. Certamente haver fogos
de artifcio.
- Sem dvida - respondeu o outro. - Mas a gente j esteve esperando a
mesma coisa h um ms e pouco, no?
- Eu sei disso? O que aconteceu?
- No  da sua conta!
- No Dog and Duck, comentavam que Jack estaria metido nisso.
- Estivesse ou no estivesse - disse o outro -, mantenha sua boca calada,
seno vai se envolver em encrencas. "
Hibbert fez uma imitao perfeita da pronncia dos homens, e depois disse
apenas:
- Foi tudo, Alteza.
- Voc faz ideia de quem  esse homem chamado Jack?
- No momento no, Alteza.
- Tente descobrir.
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- Sim, Alteza.
No disseram mais nada e o duque desceu, encontrando, como esperava, o
salo principal da casa repleto.
Sorriu para todos e teve que admitir que tanto o visconde Lucien como a
linda Claribell sobressaam entre todos os jovens presentes.
As companheiras de mesa do duque, durante o jantar, eram duas beldades
sofisticadas que conhecera em Londres e que estavam na vizinhana.
- Disseram-nos - falou uma delas - que a festa era em sua honra. S
acreditamos ao chegar aqui. Julguei que no costumasse passar fins de
semana fora, a no ser com amigos muito ntimos.
- Toda a regra tem exceo - respondeu o duque.
- Deve ter uma boa razo para esta - arriscou a moa. - Olhando para
Claribell e acrescentou: - Ela no tem necessidade de ser to rica, uma
vez que seu pupilo  um jovem de grande fortuna.
- Nunca conheci ningum que tivesse dinheiro demais! - respondeu o duque
cinicamente!
A comida estava ainda melhor do que na noite anterior. Mais uma vez, os
cavalheiros no puderam ficar muito tempo saboreando os seus vinhos do
Porto, tendo que ir logo para o salo de baile.
O duque nessa noite no queria ficar mais tempo que o necessrio.
Estava ansiando pelo momento de poder escapar e ir ver Giona. Desaparecer
dali, logo aps o jantar, podia ser um erro com graves consequncias.
Foi forado a danar com vrias senhoras mais velhas e finalmente
convidou Claribell para lhe dar a honra de uma valsa.
Ela aceitou, avidamente. No se mostrou tmida e era, sem dvida,
excelente danarina.
J tinham dado a volta ao salo, em silncio, quando ela disse num tom
sedutor.
- Espero que Vossa Alteza esteja se divertindo. Papai e eu fizemos tudo
para agrad-lo.
- Seria uma ingratido de minha parte no apreciar o vosso esforo -
respondeu o duque.
- E ns o apreciamos muito - acrescentou Claribell.
Falou num tom doce e ingnuo, que at um homem experiente tomaria como
natural.
- Lucien estava preocupado. Pensou que voc talvez pudesse ficar
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aborrecida por deixar Londres em meio  temporada - comentou o duque.
- Que bobagem! - respondeu Claribell. - Eu adoro o campo!  tudo to
bonito! Alm disso, quando venho para c, tenho tempo de pensar muito, e
at de estudar.
-  o que pretende fazer agora? - indagou o duque Valerian.
- Certamente! Todavia, sabendo como Vossa Alteza  inteligente, tenho
medo de parecer excessivamente ignorante, mesmo depois de ter recebido
uma esmerada educao nos assuntos de maior interesse.
Toda ela era lisonja e modstia, e o duque achou que aquele comportamento
tinha sido muito bem planejado, com certeza pelo prprio sir Jarvis.
O duque danou ainda mais uma valsa com uma senhora mais velha, levando-a
em seguida para o jardim.
Tinha a certeza de que sir Jarvis o observava e seria aquele o momento de
sair, se quisesse escapar em segurana.
Pessoas que no gostavam de danar, como o duque, estavam debaixo das
rvores, onde uma mesa farta em bebidas havia sido colocada.
Como a noite estava quente, muita gente preferia ficar fora e o duque, de
brao dado com a senhora, dirigiu-se a dois cavalheiros que conhecia bem.
- Alo, Dawlish! - disse a um deles. - Ser que voc ter a gentileza de
nos oferecer uma taa de champanhe? Acabamos de danar ao som da
orquestra com que nosso anfitrio nos presenteou esta noite e merecemos
algo refrescante.
Lorde Dawlish desatou a rir.
- Muito me admira que tenha danado, Alverstode - disse ele. - Pensei que
fugisse das pistas de dana.
- Talvez lady Mary me tenha feito mudar de atitude - retorquiu o duque. -
Creio que j se conhecem.
Conheciam-se, de fato, e lady Mary, consciente do seu encanto, fez o
possvel para diverti-los.
Passado um pouco, o duque disse:
- Desculpem-me um instante. Vi uma pessoa com quem tenho que falar.
- Homem ou mulher? - perguntou lady Mary.
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- Um homem e o assunto sero cavalos! - respondeu o duque e todos
desataram a rir.
Afastou-se, desaparecendo na escurido. Comeou ento a correr at a
cascata e depois pelo pinheiral.
J era tarde. As estrelas e a lua iam altas no cu, tornando a vista do
lugar ainda mais bela naquela noite.
Mas o duque s tinha olhos para o tronco cado e sentiu um alvio enorme
ao ver Giona esperando por ele.
- Boa noite! - cumprimentou o rapaz sentando-se ao lado dela.
- Foi difcil sair de l.
- Eu sabia que seria e no estava com muita esperana de que viesse -
respondeu ela. - Alm do mais, estava quase convencida de que voc
fora... um sonho.
- Garanto que sou de carne e osso e que pensei muito em voc
- respondeu o duque.
O luar iluminava o rosto dela. Plido, com os olhos muito abertos,
parecia agora mais magra do que na noite anterior.
- Comeu alguma coisa hoje? - perguntou Valerian. Ela riu.
- Como pode se preocupar com isso? Todo o mundo se esqueceu de mim, com
tanta coisa para fazer.
O duque tirou algo do bolso do casaco.
- J imaginava que devia estar faminta e trouxe-lhe isto. Colocou sobre
os joelhos dela um de seus lenos de cambraia de
linho, com o qual embrulhara alguns sanduches de pat.
Durante o baile, conseguira encontrar uma mesa numa das salas vazias da
grande manso dos Stamford, onde havia sanduches e rapidamente
embrulhara alguns no leno.
Giona olhou para os sanduches, depois perguntou:
- So de pat?
- So - respondeu o duque.
- Como pode se lembrar de algo... to maravilhoso? s vezes,  noite,
fao de conta que estou saboreando pat novamente. Ser certamente muito
mais apetitoso do que as magras costeletas de carneiro frio que parecem
ser a nica coisa que se come na ala dos empregados.
- Achei que gostaria dos sanduches - disse Valerian.
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Giona embrulhou-os de novo no leno, dizendo: - No os comerei agora. vou
querer saborear cada pedacinho deles e no conseguiria faz-lo com voc a
meu lado.
- Bem, vim para dizer-lhe o seguinte: - comeou o duque estarei indo
embora na segunda-feira pela manh por volta das oito e meia, com a
desculpa de estar com muita pressa para chegar a Londres.
Giona estremeceu, pensando que nunca mais voltaria a v-lo, mas ele
continuou:
- E voc ir comigo!
- Voc... est... falando... srio? - indagou a jovem, cheia de
perplexidade.
- Tudo o que temos a decidir  onde poderei apanhar voc. Giona pensou um
pouco, depois disse:
- A uns trezentos metros da casa, h um pequeno bosque cerrado protegido
por uma cerca que  fcil de pular.
- Voc estar l? - interpelou Valerian.
- Se... voc estiver falando... srio e me... levar mesmo... com voc.
- Sabe que nunca quebro as minhas promessas - assegurou o rapaz.
- Tenho... poucas coisas... para levar - continuou a moa.
- No precisa levar nada - disse o duque. - Certamente levantaria
suspeitas, caso algum a visse saindo de casa, carregando alguma coisa.
- Foi o que pensei.
- Ento saia simplesmente, como se estivesse indo dar um passeio e deixe
o resto por minha conta - pediu Valerian.
Giona apertou as mos.
- Eu... estou sonhando! Eu sei... que estou sonhando!
- Voc est bem acordada - disse o duque com firmeza. - E ter que usar
toda sua inteligncia, a fim de que nada a impea de chegar s rvores
que me descreveu.
- Nunca... conseguirei demonstrar-lhe minha indizvel gratido disse
Giona.
- Agora no temos tempo para isso. Embora apreciasse muito ver
51
voc novamente, acho que seria um erro voltar aqui amanh  noite. Giona
concordou.
Tinha o rosto voltado para ele e o duque podia ler a confiana estampada
naquele semblante e um ar de adorao que ele achou comovente.
- Mantenha-se longe de sir Jarvis amanh - disse ele. - Lembre-se que a
hora mais escura  sempre antes do amanhecer.
- Nunca... ser... escura... como antes - afirmou Giona.
- Antes de nos encontrarmos, ontem  noite... nunca senti uma esperana
to grande... no corao... parece que vem das estrelas.
- Continue pensando assim e tenha f, at chegar segunda-feira. Agora
tenho que deixar voc.
- Sim!.  claro.
- Suas costas esto melhores? - indagou Valerian, preocupado.
- Muito... muito melhores! - respondeu ela, mas o rapaz sabia que ela
estava se sentindo apenas mais corajosa.
Tomou a mo de Giona entre as suas e levou-a aos lbios.
- At segunda, menina. Acontea o que acontecer, estarei esperando voc!
Mesmo que chovam raios e coriscos!
Ela riu e o duque levantou-se perguntando:
- A propsito, existe algum empregado na casa, ou na propriedade que se
chame Jack? Quem  ele?
Pela maneira como o encarou, o duque percebeu que Giona ficara intrigada
com a pergunta.
- Por que  que quer saber? - indagou ela.
- Existe alguma razo para voc no me poder dizer quem  ele?
- N... no... creio... que no.
O duque ficou esperando e passado um pouco Giona respondeu:
- Creio que deve estar falando de Jack Hunstsman.
- O que  que ele faz?  empregado de sir Jarvis? - Ele treina os
cavalos... da propriedade.
- Mais alguma coisa?
- Acho... que deve perguntar... a outras pessoas.
- Estou fazendo a pergunta a voc, e sir Jarvis pode no gostar que eu me
ponha a perguntar sobre seus empregados ou sobre as pessoas daqui.
O duque sabia que estava tirando uma vantagem desleal. Entretanto,
52
era evidente que algum mistrio cercava o tal Jack e quanto mais der
pressa descobrisse qual era, melhor seria.
Giona percebia as implicaes do que ele acabara de dizer e pouco 
vontade, respondeu:
- Ele... d lies... de equitao... a Claribell -. Obrigado - disse o
duque, por fim.
 Ele tinha ouvido o que queria e, na verdade, j suspeitava de algo.
Giona levantou-se e o duque achou que  luz do luar ela parecia muito
magra e etrea, e aquele vestido cinzento fazia com que se
 misturasse  prpria escurido. Apenas o brilho de seu olhar a
identificava como um ser e no uma sombra.
- Boa noite, Giona! - murmurou Valerian com sua voz profunda. - Cuide bem
de voc at segunda-feira. Teremos um longo caminho a percorrer e no
quero que desmaie em meus braos.
- Eu no faria uma coisa dessas. E muito obrigada pelos sanduches.
Valerian afastou-se por entre as rvores e s quando tinha desaparecido,
 que Giona voltou a sentar-se no tronco.
Ficou muito tempo olhando para o vale banhado pelo luar, rezando para que
os planos do duque se tornassem realidade.
O baile acabara tarde, com as estrelas j desaparecendo no cu e ningum
se levantou cedo na manh seguinte.
O duque foi passear a cavalo uma hora mais tarde do que o habitual, mas
mesmo assim acordou  hora de sempre, preocupado com Giona. Contudo,
quando apareceu para tomar o caf, ningum diria que i alguma preocupao
o afligia.
 A maior parte dos cavalheiros estava bebendo conhaque, deixando de
lado a comida disposta no aparador, em travessas aquecidas de prata.
- Est com tima aparncia, Alverstode! - comentou um de seus amigos,
assim que Valerian tomou lugar  mesa.
- E voc no devia beber tanto - respondeu o duque. - Sabe to bem quanto
eu que na manh seguinte se paga caro por cada copo a mais.
- Sei muito bem! - gemeu o amigo. - Mas no consigo ficar acordado, sem
beber.
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O duque comeu um excelente desjejum, acompanhado por duas xcaras de caf
e em seguida retirou-se da sala para ler os jornais na biblioteca. Assim
que l chegou, constatou satisfeito que no havia ningum por perto. Mal
iniciara sua leitura, no entanto, quando sir Jarvis entrou.
- Soube que estava aqui e vim convid-lo para ir conosco s cocheiras,
onde um de meus homens est treinando um novo garanho.  um animal
fantstico e creio que vai gostar de v-lo.
Certo disso, o duque acompanhou sir Jarvis, sem fazer mais perguntas:
Assim que chegaram s estrebarias, ouviu sir Jarvis dizer ao homem que os
aguardava:
- Traga para fora o Rufus, Jack, e mostre-nos como lida com ele. O duque
ouviu o que desejava, ficando mais interessado no homem
que treinava o cavalo do que no prprio animal.
Jack Hunstsman era um homem de pouco mais de trinta anos, com boa figura
e o ar insolente de quem tem muito sucesso com mulheres.
O fsico do rapaz era quase perfeito: esbelto, ombros largos e, embora
no se pudesse dizer que fosse um cavalheiro, era inegavelmente superior
aos outros empregados das cocheiras.
Rufus era vivo, selvagem e decidido a no se deixar montar. No havia
dvidas, porm, de que Jack era um cavaleiro muito experiente.
O duque, no entanto, achou-o severo demais para com o animal. Jack o
chicoteava mais que o necessrio e o cavalo era ainda muito jovem.
Ficaram observando durante uns vinte minutos, e ento sir Jarvis, temendo
que o duque se entediasse, disse:
- Tenho outros cavalos que vieram do pasto ontem. Mandei trazlos para c
e talvez goste de v-los.
- Tenho a impresso de que est tentando me fazer inveja - disse o duque.
- Pelo contrrio, continuo interessado na hiptese de uma associao
entre ns.
O duque ficou imaginando o que sir Jarvis diria se ele o mandasse se
associar com o diabo, mas limitou-se a responder vagamente:
- Estou sempre interessado em novas ideias.
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Depois mudou de assunto, perguntando ao anfitrio qual o cavalo que
levaria a concorrer em Ascot.
Para Valerian, o dia se arrastou interminvel. As horas passavam devagar
e ele sabia que a cada momento Lucien se envolvia mais com Claribell.
Sentavam-se lado a lado, conversavam e, ao fim da tarde, foram passear
num dos melhores faetontes de sir Jarvis.
Durante o jantar, o visconde sentou-se  direita de Claribell e ela no
fez o menor esforo para conversar com o homem que tinha  sua esquerda.
 Depois da ceia, vrios convidados foram para o terrao. O duque,
entretanto, resolveu sentar-se numa das mesas, jogando cartas, fazendo
apostas altas, at que um de seus parceiros abaixou as cartas na mesa,
dizendo:
- Voc tem uma sorte incrvel, Alverstode, e eu estou morrendo de sono.
vou para a cama.
- Eu tambm - disse o parceiro do duque. - Estou ficando velho para
noitadas.
No era o nico. As senhoras tambm no estavam to dispostas quanto na
noite anterior e j se despediam, subindo as escadas com candelabros
acesos na mo.
Hibbert estava esperando no quarto do duque, mas, quando estendeu a mo
para ajud-lo a tirar o casaco, ele o impediu.
- O que quero que faa, Hibbert - disse em voz baixa -,  que descubra
como posso chegar s cocheiras, sem que me vejam.
- Posso ajudar, Alteza? - perguntou Hibbert.
- No, quero ir sozinho.
-  melhor esperar um pouco mais, Alteza.
- Concordo - disse o duque - mas no muito.
O criado saiu do quarto, voltando dez minutos depois.
No foi preciso que dissessem nada um ao outro. O duque simplesmente
seguiu Hibbert pelo corredor principal, onde metade das luzes J estavam
apagadas, e eles desceram uma escada sinuosa, at o trreo.
Seguiram por passagens estreitas, at chegarem a uma porta que Hibbert
destrancou para que o duque sasse.
- Vai conseguir encontrar o caminho de volta, Alteza? - indagou Hibbert.
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- Se consegui sempre voltar das misses em Portugal e Frana, onde s
tinha como auxlio mapas obsoletos e mal-elaborados, poderei muito bem
encontrar o caminho de volta para meu quarto - respondeu o duque.
Uma vez fora de casa, Valerian seguiu seu instinto, indo em direo s
cocheiras.
De manh, reparara num grande celeiro de feno, situado pitorescamente
entre vidoeiros.
No parecia estar sendo usado, ou talvez s guardassem ali feno para
qualquer emergncia. O duque, todavia, pressentiu que seria um lugar
muito romntico para um encontro amoroso, prximo  casa.
Dirigiu-se at l, andando cuidadosamente pelos locais mais seguros, at
um ponto onde se escondeu, atrs de uns rododendros.
Acomodou-se confortavelmente, ciente de que, se estivesse errado em suas
suposies, teria muito tempo de espera. Mas seu instinto nunca o trara
e lhe dizia que estava na pista certa.
Depois de uns quinze minutos, ouviu um barulho vindo da casa e, de uma
outra porta, apareceu uma figura usando uma capa de veludo azul-marinho,
sobre um vestido de noite.
Era Claribell, o duque tinha certeza. A jovem aproximou-se, sempre
andando rente a uma cercadura de flores, encoberta por alguns
castanheiros. Assim que a moa chegou perto do celeiro, o duque notou a
silhueta de um homem, que surgia da escurido para esperar por ela.
Bastou um simples olhar para perceber que era Jack Hunstsman. Valerian
esperou que o casal desaparecesse e correu silenciosamente de volta 
casa, onde, depois de passar pelo mesmo caminho por onde sara, atingiu o
corredor onde ficava seu quarto.
L chegando, dirigiu-se at o quarto onde Lucien dormia.
Hesitou um momento, sem saber se estava agindo corretamente ou no.
Por experincia prpria, o duque sabia que uma desiluso doa muito e
deixava cicatrizes por muito tempo.
A outra alternativa possvel, no entanto, seria ainda pior: deixar o
jovem Lucien casar-se com uma mulher promscua, que lhe juraria
fidelidade eterna, quando estava de fato apaixonada por outro homem.
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A fisionomia do duque endureceu, quando abriu a porta do quarto do rapaz,
sem bater.
Lucien no estava cansado ao ir para a cama. Ficara deliciado com as
coisas que Claribell lhe dissera.
- Pense como ser maravilhoso quando estivermos casados murmurara ela,
com sua voz suave e tentadora. - Poderemos dar festas ainda melhores e
maiores do que a que papai deu ontem  noite.
- No estou nada interessado em festas - dissera Lucien. Quero apenas
estar com voc.
- Ns estaremos juntos - afirmou Claribell. - Mas ser delicioso receber
pessoas e morar com seu tutor.
- Quero mostrar-lhe a manso principal - dissera Lucien -, mas o mais
importante para mim  que conhea Frome House. Talvez no seja to grande
e imponente, mas  linda. Quando minha me era viva, todos diziam que as
festas em Frome eram mais divertidas do que qualquer outra.
- Voc tem relaes com a realeza? - indagara Claribell.
- Normalmente a realeza  muito aborrecida com tanta pompa e protocolo -
retrucara o visconde.
- Apesar disso,  do que vou gostar - dissera ela. - Voc far isso por
mim, no?
- Sabe que farei tudo o que voc quiser - respondera Lucien,
apaixonadamente. - Diga que me ama e que jamais homem algum foi to
importante para voc.
- Sabe que o amo - murmurara Claribell. - No precisa ser ciumento.
- Eu tenho cime! - insistira Lucien. - Detesto que voc dance com outros
rapazes. Detesto o jeito como olham para voc e se algum homem flertar
com voc depois de estarmos casados, juro que o matarei!
Claribell dera uma risada encantadora.
- Oh, querido, no precisa ser to dramtico. Assim que nos casarmos, eu
serei sua mulher.
- A mais linda, adorvel e excitante mulher que qualquer homem j Possuiu
- dissera Lucien.
Ela lhe dera a mo e ele sentira tanto prazer que quase morrera de
xtase.
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Assim que chegara ao quarto, tirara o casaco e sentara-se para escrever
um poema para Claribell.
Tinha pedido a um empregado que o colocasse na bandeja do caf de sua
amada e ficara imaginando como a jovem se sensibilizaria ao ler suas
doces  palavras.
No estava sendo nada fcil escrever o tal poema e s tinha escrito duas
linhas que lhe agradavam, quando a porta se abriu. Surpreso, Lucien vira
o duque entrar.
Pousou a pena, imaginando o que o seu tutor teria para lhe dizer.
Admirou-se quando o duque fechou a porta com todo o cuidado e foi ter com
ele, dizendo em voz baixa:
- Quero que venha comigo, Lucien. Tenho uma coisa para lhe mostrar.
- A esta hora da noite? - indagou o outro, intrigado.
- Sei que  tarde, mas  muito importante - justificou o duque.
- Claro que farei o que me pede - disse Lucien -, mas no entendo...
- Depressa - advertiu o duque. - E quero que prometa que a partir do
momento em que sairmos deste quarto, voc no dir uma s palavra.
- Mas por qu? - indagou o visconde, ainda mais curioso e atnito.
- Prometa, vamos.
- Claro, se voc assim o quer. Mas gostaria de entender...
- No h tempo para explicaes - interrompeu o duque rapidamente. -
Venha comigo e acontea o que acontecer, quero que mantenha sua promessa
de no dizer, nem fazer nada.
O visconde sorriu.
- Isto est parecendo romance de capa e espada! - disse o jovem por fim.
Lucien vestiu o casaco enquanto falava. O duque abriu a porta e seguiu 
frente do jovem, pelo corredor.
Seguiram pelo caminho que o duque j trilhara e, ao chegarem ao
rododendros, o duque reparou que a lua agora iluminava o celeiro, que
parecia claro como se fosse dia.
O visconde olhava para ele, francamente espantado.
No conseguia perceber porque seu tutor o levara at ali, no meio
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da noite, sem qualquer razo aparente. Chegara mesmo a pensar que o duque
bebera demais durante o jantar.
Depois disse a si mesmo que devia haver um bom motivo para tudo aquilo,
embora no fizesse a menor ideia do que pudesse ser.
Entretanto, era evidente que teria que ficar esperando e poderia muito
bem tentar acabar o poema mentalmente. Dessa forma, depois teria apenas
que escrev-lo, quando voltasse para o quarto.
J conseguira compor mais trs frases, quando comeou a sentir o corpo
doendo por estar tanto tempo em p.
Nesse instante, reparou que o duque ficara tenso.
Olhou para o tutor, seguindo a direo do olhar deste. Ficou petrificado.
Vindas da direo do celeiro, que ficava bem em frente, apareceram duas
pessoas.
Reparou primeiro no manto azul de Claribell, porque ajudara a jovem a
vesti-lo no princpio da noite, quando passeavam pelo jardim.
Ele colocara o manto languidamente sobre os ombros da linda jovem, que
lhe agradecera de uma maneira que lhe dera vontade de beij-la.
Agora ele a via conversando com um homem que no conseguia reconhecer.
Estava certo, entretanto, de que no se tratava de nenhum dos convidados.
Claribell se adiantou um pouco e Lucien pde ver, para sua surpresa, que
o homem estava usando roupas de montaria.
Mal tivera tempo de pensar, quando viu a jovem voltar-se para o homem,
passando os braos  volta do pescoo dele, que a estreitou com fora.
Comearam a trocar beijos longos e apaixonados e o visconde compreendeu
tudo, subitamente. J ia comear a correr para eles, quando o duque,
prevendo a atitude do rapaz, agarrou-o pelo pulso, com dedos de ao.
Lucien lembrou-se ento de que lhe dera sua palavra de honra que,
acontecesse o que acontecesse, no diria, nem faria nada.
Mais tarde, o visconde no saberia dizer se estivera observando a mulher
que amava nos braos de outro homem, durante minutos ou horas.
Claribell e Jack se separaram e a jovem ps-se a caminhar depressa pela
sombra dos castanheiros, at desaparecer.
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Jack Hunstsman deu um longo bocejo e em seguida dirigiu-se para
as cocheiras.
S quando o arrogante cavaleiro desapareceu da vista  que o duque largou
o pulso do primo e ambos voltaram para casa no mais completo silncio.
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CAPITULO IV

Nenhum dos dois homens disse uma nica palavra, at chegarem aos
aposentos do visconde.
Ao entrar, Lucien murmurou baixinho que s desejava ir embora. Sua voz
estava rouca e o duque sabia o quanto ele estava sofrendo.
- Acho que seria um erro - ele contradisse o rapaz, tranquilamente.
- Se pensa que vou ficar aqui e encontrar aquela mulher de novo, est
muito enganado! Ela mentiu para mim e fingiu durante todo o tempo...
As palavras no saam e o jovem apertava as mos, esforando-se para se
controlar.
- Seria um erro - disse o duque. - Eles no devem ficar sabendo de seus
sentimentos, nem do que voc descobriu.
- Quero jogar tudo na cara deles! - murmurou o visconde entredentes.
- Sei que  o que desejaria fazer, e eu tambm - afirmou o duque. - Mas
voc ter sua vingana, isso eu garanto. Mas no agora!
Viu que o visconde mal prestava ateno ao que ele dizia, e passado um
momento, continuou:
- O que sugiro  que partamos com dignidade, sem que sir Jarvis nem a
filha faam a menor ideia do que descobrimos. Eu agradeceria muito se
voc pudesse conduzir meu faetonte at Londres.
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Por alguns instantes, as palavras do duque pareceram no penetrar na
mente conturbada do visconde. Pouco depois, entretanto, ele perguntou
incrdulo:
- Voc disse guiar seu faetonte?
-  o que gostaria que voc fizesse.
- Mas voc nunca permite que outra pessoa conduza seus cavalos!
- Neste momento  importante que voc faa isso. Mandei vir o meu coche
D'Orsay, porque terei de ir a outro lugar, antes de voltar a Londres.
A nica coisa que poderia melhorar o nimo do visconde naquele momento
seria a perspectiva de conduzir os magnficos cavalos de seu tutor, que
faziam inveja a qualquer proprietrio de cavalos.
Era sabido que o duque jamais permitiria que algum conduzisse qualquer
um de seus cavalos, que eram seu maior orgulho.
Vendo que conseguira captar a ateno de seu pupilo, o duque continuou:
- Partiremos s oito e meia e Hibbert vir acord-lo s sete. Vamos
deixar que nosso anfitrio acredite que a visita foi um sucesso. Ento,
quando voc no tornar a entrar em contato com a srta. Stamford, ele
comear a se preocupar e ela tambm, tentando imaginar o que ter
acontecido.
Ao lembrar-se de que isso certamente iria aborrecer Claribell, o visconde
ficou com um olhar duro, que traduzia toda sua sede de vingana.
- Garanto a voc - assegurou o duque -, que tenho contas to grandes
quanto s suas para ajustar com sir Jarvis. Estou apenas esperando para
saber de uns pormenores que, espero, podero destru-lo.
- Voc est falando srio? - indagou o visconde.
- No tenha dvidas - confirmou Valerian.
- Ento me conte o que pretende fazer - pediu Lucien.
- Tudo a seu tempo - respondeu o duque. - Quando voc souber de tudo,
perceber que teve muita sorte, embora lhe custe a aceitar o fato neste
momento.
O duque nada mais disse. Abriu a porta e acenou para o seu pupilo,
deixando-o a ss com a tristeza e o desespero de um jovem apaixonado, que
acaba de sofrer uma dura traio.
Quando chegou a seu quarto, o duque estava pensando em Giona. Esperava
ardentemente que nada a impedisse de chegar at o bosque,
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onde tinham combinado de se encontrar, na manh seguinte. Refletindo
sobre sua ansiedade ficou surpreso diante dos prprios sentimentos.
Dirigindo seu coche D'Orsay atravs dos campos, o duque pensava que as
coisas tinham corrido melhor do que esperava. Aquele veculo, o mais
veloz que possua, era puxado por uma magnfica parelha de garanhes.
Lucien e ele tinham tomado o caf sozinhos no salo, s oito horas, e s
quando saam para o vestbulo  que sir Jarvis aparecera, descendo as
escadas depressa.
- No sabia que iam embora to cedo! - exclamara antes de chegar ao
ltimo degrau. - No entendo por que no fui informado.
- Pensei que soubesse que tenho urgncia em chegar a Londres o mais cedo
possvel - respondera o duque. Como sabe, Sua Alteza Real no gosta de
esperar.
Sir Jarvis no tivera como argumentar e voltara-se para o visconde,
perguntando:
- Voc tambm tem que ir, Frome? Sei que Claribell estava esperando que
ficasse para almoar conosco.
O duque percebera a tenso do jovem Lucien, quando sir Jarvis lhe
dirigira a palavra, e resolvera interromper:
- Meu primo est me fazendo o favor de dirigir meu faetonte explicara
ele. - Outro motivo de ter que ir embora to cedo  que, no caminho,
terei que visitar uma velha parente, que se encontra acamada. 
aborrecido, mas trata-se de uma obrigao que no posso deixar de
cumprir.
- Entendo - dissera sir Jarvis, num tom que demonstrava claramente que
estava mentindo.
Na verdade, olhara para seus dois convidados com uma expresso que
revelava claramente sua preocupao por aquela partida sbita.
O pior de tudo  que o visconde no pedira formalmente a mo de sua filha
em casamento.
- Foi uma visita muito agradvel! - afirmara o duque, dirigindo-se para a
porta da rua. - Mais uma vez quero lhe dar os parabns Pela casa e pela
beleza de seu jardim.
Sir Jarvis no respondera, seguindo ao lado de Lucien, atrs do duque.
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- Claribell ficar desapontada por voc ter voltado to cedo para Londres
- dissera ele. - Mas espero que possa vir jantar conosco amanh.
Estaremos ansiosos por estar novamente consigo.
O visconde estivera prestes a recusar, mas limitara-se a dizer, num
murmrio:
-  muita gentileza sua.
Antes que sir Jarvis pudesse dizer mais alguma coisa, pulara para o
faetonte do duque, pegando rapidamente as rdeas. O duque parara para
dizer ao cocheiro:
- Veja se Sua Senhoria no corre demais!
Depois andara mais um pouco at o seu coche e o cocheiro lhe entregara as
rdeas, passando para o estreito banco na parte de trs.
Os garanhes estavam descansados e difceis de controlar, mas o duque
ainda tivera tempo de reparar que sir Jarvis, parado nas escadas para v
los partir, tinha uma expresso intrigada no rosto e uma ruga entre as
sobrancelhas.
O duque estava atento e seguiu o faetonte at passarem os enormes
portes. Depois, constatou satisfeito, que a estrada de terra do outro
lado estava vazia e que no havia nenhuma casa  vista.
Via-se facilmente o muro alto que demarcava o fim da propriedade e a
cerca de madeira do bosque. O duque mandou parar os cavalos, dizendo ao
criado:
- Levante a capota, Ben.
Sabia que o homem estranharia aquela ordem, pois era do conhe
conhecimento  geral entre seus empregados, que, a no ser que estivesse
chovendo torrencialmente ou nevando, Sua Alteza jamais andava com a
carruagem fechada.
O criado desceu para puxar a capota que fora desenhada para reduzir ao
mnimo a velocidade do veculo e o duque viu uma figurinha magra pulando
a cerca com agilidade e vindo a correr por entre as rvores: era Giona!
Deu-lhe a mo para ajud-la a subir para o seu lado, sem perder tempo com
palavras e partiu, mal dando possibilidade a Ben de se instalar no banco
traseiro.
Durante algum tempo, seguiram em silncio. O duque percebeu que a jovem
estava sem flego, mais devido ao excitamento do que  corrida.
Olhou para ela de soslaio e reparou que os olhos de Giona estavam
brilhando e que seu rosto plido apresentava um vislumbre de cor.
Agora que podia v-la  luz do dia, constatava o quanto estava magra.
Seus pulsos tinham os ossos  vista, como as crianas que vira em
Portugal, depois que os franceses partiram levando com eles todo o
alimento disponvel.
Continuava usando o mesmo vestido cinzento, s que agora tinha um xale
pequeno de l sobre os ombros.
Ela fora sensata em trazer alguma coisa para se aquecer durante a longa
viagem que tinham pela frente.
Giona no usava chapu e, pela primeira vez, Valerian pde ver a cor dos
cabelos dela. No eram pretos como imaginara, mas de uma tonalidade
semelhante ao de um raio de luar.
Era um misto de cor e escurido, como se a luz e a sombra se tivessem
combinado para produzir a cor de cabelo mais bela que jamais vira em
outra mulher e que contrastava com seus olhos de um azul suave.
- Voc conseguiu fugir! - exclamou ele com um sorriso.
- Mal... posso acreditar! - disse ela. - Ser que estou... realmente
deixando para trs... o desespero e a misria?
- Juro que nunca batero em voc - prometeu o duque. - Daqui para a
frente, um futuro luminoso far voc esquecer o passado.
- Como pude... ter tanta sorte e estar... naquele exato lugar, quando
voc foi... apreciar a vista?
- Voc  grega e deve saber que os deuses cuidam de sua gente!
- comentou o duque, brincalho.
Ela sorriu, antes de dizer:
- Eu... lhe sou eternamente... grata.
Depois, seguiram em silncio. O duque estava satisfeito com o desempenho
de seus cavalos e Giona consciente de que cada quilmetro que andavam a
afastava cada vez mais do terror de sir Jarvis.
Havia uma estalagem logo  frente. O duque reduziu a marcha para Parar e
Giona olhou para ele, interrogativamente.
- Estou certo de que voc est com fome e de que no fez seu desjejum
antes de partir - disse ele, como que respondendo  pergunta que vira
estampada nos olhos de Giona.
- Mesmo que tivessem me dado algo para comer, creio que no teria
conseguido faz-lo, tamanha a excitao que sentia.
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- J disse a voc que no gosto de moas que desmaiam de fraqueza! -
continuou Valerian.
- Eu estou bem - garantiu a jovem.
- Mas no quero arriscar - concluiu o rapaz, carinhosamente. Ao se
aproximarem da estalagem, Giona indagou:
- E se me virem? Afinal, no estamos assim to longe de Stamford Towers e
tio Jarvis pode estar  minha procura.
- Pensei nisso tambm, mas esta estalagem  muito fora de mo e antiga.
Seu tio nunca iria suspeitar de que eu pudesse vir comer aqui.
Percebendo ainda uma certa hesitao no olhar de Giona, o duque
acrescentou:
- A ao seu lado est minha capa. Ponha-a sobre os ombros e solte o
cabelo. Como voc  muito jovem, comentarei casualmente que  minha irm
mais nova, que acaba de sair da escola.
Giona riu, divertida.
- Voc ... maravilhoso! Torna tudo emocionante... como num romance.
Enquanto falava, a jovem tirou os grampos que seguravam seus cabelos,
deixando-os cair livremente. Eram muito longos e tambm muito bonitos.
Num segundo, Giona arrancou o xale e colocou a capa preta do duque. A
capa tinha gola de veludo e um leno de seda vermelha para atar ao
pescoo.
O dono da estalagem apareceu, visivelmente satisfeito por receber
fregueses que possuam cavalos to magnficos.
Ben, que recebera instrues de seu patro, saltou, dizendo:
- Este senhor  sir Alexander Albion, que deseja um compartimento
privativo para almoar com a irm, miss Juliet Albion.
O estalajadeiro inclinou a cabea, respeitosamente.
- Estou muito agradecido pelo cavalheiro ter me dado a honra de receb-
lo. No temos sala privativa, mas, no momento, no h ningum na sala de
jantar.
- Ento no deixe mais ningum entrar - ordenou Ben, enquanto ajudava
Giona a descer da carruagem.
A jovem lavou as mos, penteou o cabelo e disse  esposa do proprietrio
que tinha perdido o chapu com o vento, uma vez que ela e o irmo tinham
feito parte da viagem com a capota descida.
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- No tem mais nada para cobrir a cabea, miss? - perguntou a mulher,
solcita.
- Meu irmo no quis parar para apanhar o chapu. Apenas deixou subir a
capota e estou bem assim - respondeu Giona.
- Posso arranjar uma fita, miss, se quiser prender o cabelo sugeriu a
mulher.
- Seria muita gentileza de sua parte - agradeceu Giona.
Ao descer para a sala de jantar, tinha o cabelo escovado e preso por uma
fita azul, atada no alto da cabea.
O duque divertiu-se ao ouvir a explicao da jovem sobre como tinha
conseguido a fita e, assim que ficaram a ss, ele comentou:
- Agora voc parece mesmo uma colegial!
- Daqui a trs meses, completarei dezenove anos - respondeu Giona.
Antes disso exclamara de satisfao ao ver fatias de pat sobre a mesa.
- Como  que eles tm pat aqui? Claro, foi voc quem trouxe!
- Meu criado sempre zela pelo meu conforto - respondeu o duque. - Ele no
aprova a comida que servem na maioria das estalagens do interior.
- Ainda bem que estou com tanta fome! - disse Giona, sorrindo.
Mas, embora a galinha fria com passas e cogumelos estivesse deliciosa, a
jovem conseguiu comer muito pouco. O duque sabia que, aps tanto tempo de
privaes, ela ainda demoraria para recuperar o apetite normal.
O vinho que Hibbert serviu, da adega de sir Jarvis, era timo e quando a
refeio terminou, Giona deu um suspiro, dizendo:
- Tantas noites fiquei acordada, sonhando com refeies como esta, crente
de que nunca mais voltaria a comer assim.
- No futuro, espero poder fazer-lhe mais justia - disse o duque,
secamente.
- Para onde... me est levando? - perguntou, finalmente, Giona.
- Para junto de algum que cuidar de voc, enquanto fao as
investigaes que me pediu. Giona pareceu ficar um pouco apreensiva.
- No... vou ficar... junto de voc? - indagou ela, num murmrio.
- No momento, no, e acho que  suficientemente inteligente para
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se lembrar de que  menor de idade e, como seu tio  seu tutor, eu
poderia ser acusado de estar corrompendo uma menor. Giona deu uma
exclamao de horror e disse:
- Esqueci-me desse pormenor... desculpe... mas nem me lembrei dessa lei
aqui na Inglaterra... eu no devia... ter vindo com voc.
- Teria coragem para recusar minha ajuda? - perguntou o duque.
- Mas... mas... acho que a pena... por rapto...  ser deportado.
- Voc no respondeu  minha pergunta.
- Se lhe disser que teria recusado, no... seria verdade - disse Giona. -
Voc  como Perseus, salvando-me do monstro marinho, ou como So Miguel e
todos os seus anjos vindo em minha ajuda! Mas agora que estou livre,
vejo... que  hora... de deix-lo.
- Como pretende fazer isso? - perguntou o duque.
- Se voc me der um pouco... de dinheiro... muito pouco... tentarei ir
para a vila onde mame morava, antes de fugir com papai. Meu av j deve
ter morrido... mas deve haver algum que se lembre dele... e que poder
me ajudar a encontrar uma maneira de sobreviver.
O duque observou-a cuidadosamente, certo de que ela falava cora toda a
sinceridade.
- Tenho planos muito diferentes para voc e como acho que de certa forma
est em dvida comigo...
- Uma dvida muito grande - interrompeu Giona.
- Vai fazer o que eu quero - concluiu o duque.
- Sabe que farei tudo... tudo o que me pedir - garantiu ela.
- Muito bem, ento A primeira coisa que temos a fazer  escolher um novo
nome para voc. Evidentemente que no pode usar Stamfon
- N... no... claro que no!
- Eu ia mesmo lhe perguntar - continuou o duque - qual e o nome de
solteira de sua me.
- Hamilton - respondeu Giona.
O duque repetiu o nome, para conseguir decor-lo.
- Por causa de seu nome prprio e como voc no parece inglesa, esperava
que fosse um nome grego.
Giona sorriu.
- Minha av era meio grega. Seu nome era... Andreas.
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- Ento, daqui em diante, este ser o seu nome: Giona Andreas. Espero que
lhe agrade.
- Tenho muito orgulho de meu sangue grego.
- . O formato de seu nariz - acrescentou o duque -  o mesmo das
Caritides da Acrpole e particularmente das esttuas das deusas, que
tambm vi em Atenas.
- Voc est me fazendo ficar to convencida, que acho que manterei minha
cabea erguida, acontea o que acontecer no futuro.
- Creio que foi o que j fez ao enfrentar todas as dificuldades do
passado - comentou o duque. - Antes de partirmos, ainda lhe quero fazer
uma pergunta: Voc tem ideia do ano em que seus pais se casaram?
- Mame disse muitas vezes, que nasci exatamente doze meses aps ela ter
fugido com meu pai - disse Giona -, portanto eles devem ter se casado em
agosto de 1799.
- Assim ser muito mais fcil descobrir se houve ou no casamento.
- Ento... voc vai mesmo... procurar o registro?
A voz de Giona saiu quase num sussurro e o duque disse:
- Acho que essa pergunta  um insulto para mim.
- Sei que prometeu... mas nem quis acreditar... Voc  to importante e
deve ter tantas coisas para fazer... em vez de... preocupar com meus...
problemas.
- Pensei que j se tivesse convencida de que me preocupo mesmo.
- Agora tenho a certeza e queria ter palavras para lhe agradecer, mas
no consigo encontr-las... S posso afirmar que  um obrigada do fundo
do corao... Espero que entenda.
- Tentarei.
Valerian ficou to comovido com a maneira de ela falar, que respondeu
qualquer coisa de delicado, levantando-se ao mesmo tempo.
Estava habituado a que as mulheres se apaixonassem por ele e, embora
soubesse que no era o caso de Giona, viu nos olhos dela o mesmo brilho
de admirao.
Seria certamente um problema a mais, se ela resolvesse v-lo como algo
que no seu libertador.
O duque desejava apenas fazer-lhe justia e vingar-se de sir Jarvis que
tinha tratado Giona de modo to abominvel, que devia ser punido como se
pune um torturador de uma criana ou animal.
69
No conseguia esquecer as marcas nas costas da frgil jovem.
Sabia tambm que ela fora sincera ao dizer que o tio tinha a inteno de
deix-la morrer  mngua, e, o que era pior, mentalmente pei perturbada.
O simples fato de ser rotulada de bastarda e de ver a memria de sua
adorada me denegrida seriam suficientes para afetar a mente de qualquer
moa sensvel.
Tudo isso, combinado  brutalidade de sir Jarvis e  perfdia de
Claribell,  tinha feito o duque jurar a si mesmo que os faria pagar
por seus pecados.
Ainda haveria um longo caminho a percorrer, antes de ver seus planos bem
sucedidos e sir Jarvis ajoelhado a seus ps.
com o boxe, o duque aprendera a no menosprezar seus adversrios. e com
a  guerra, a esperar sempre pelo inesperado.
Durante o resto da viagem, Valerian foi repassando mentalmente todos os
detalhes de sua nova campanha, decidido a cuidar dos mnimos detalhes e
no deixar qualquer pormenor ao acaso.
Era como se estivesse planejando uma batalha, procurando os pontos fracos
do inimigo.
 medida que a tarde ia avanando, a paisagem tambm mudava. Giona olhava
para tudo, cheia de interesse. Estavam perto de Buckinghamshire, onde
ficava situada a propriedade Alverstode.
Ali, o duque conhecia cada pedao de terreno, e os cavalos, pressentindo
que estavam perto de casa e de suas confortveis cocheiras, pareciam
correr ainda mais, sem precisarem da ajuda do condutor.
Vinte minutos depois, o duque exclamou, satisfeito:
- Bem-vinda, Giona! Agora estamos andando nas terras que pertencem 
minha famlia, h sculos.
- Que maravilha! - murmurou Giona. - Mas pensei que... no me estivesse
levando para sua casa.
- Estou levando voc para ficar com minha av - respondeu o duque. - Ela
 uma senhora extraordinria. Foi muito bela, mas agora est velha, sofre
de reumatismo e no tem muitas distraes. Acho que voc lhe dar um novo
sentido  vida.
- Vai... contar-lhe... toda a verdade... sobre mim?
- vou, porque ela gostar de saber - respondeu o duque. - En tretanto,
ningum mais, alm de Lucien, deve ficar sabendo. Como
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voc deve compreender, Giona, absolutamente ningum dever merecer sua
confiana.
- Prometo que manterei o mais completo silncio quanto a isso - afirmou
Giona. - Mas diga-me... se eu ficar com... sua av... poderei ver
voc... de vez em quando?
- Ainda no estou disposto a desaparecer - respondeu o duque. Finalmente,
ao passarem pelos portes ornamentados, Giona viu 
sua frente uma manso magnfica, construda durante o reinado da rainha
Anne e o duque reparou na maneira como a jovem juntou as mos, apertando-
as, nervosamente.
Olhando para ela, pensou que nunca conhecera uma mulher dona de olhos to
transparentes, que tudo revelavam sobre seus sentimentos.
No tiveram tempo de dizer nada. O duque parou o faetonte diante da porta
principal e Ben saltou para ajud-los.
Neste momento dois criados apareceram vindos das cocheiras, fazendo uma
continncia respeitosa, assim que viram quem acabava de chegar.
O duque ajudou Giona a descer, vendo que estava com as mos geladas e
trmulas.
- No precisa ter medo de nada - disse gentilmente, enquanto subiam os
degraus at  porta.
Um mordomo de cabelos brancos apareceu apressadamente  entrada.
- Alteza! - exclamou. - Que surpresa! Sua av ficar encantada. Ainda
ontem reclamou que Vossa Alteza tinha se esquecido dela.
- Estou aqui, Simpson, como v - respondeu o duque. - Onde est Sua
Alteza?
- Em seus aposentos. H dois dias que tem dores e no tem descido.
- Ento subirei para v-la. E, por favor Simpson, leve miss Andreas at a
sra. Meadows para que ela possa se arrumar, depois desta longa viagem.
- Certamente, Alteza.
Simpson sorriu para Giona, dizendo:
- Tenha a gentileza de me acompanhar, miss, mas  melhor que subamos
depois de Sua Alteza, pois j no consigo andar depressa como
antigamente.
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O duque adiantou-se, reparando que Giona vinha atrs, conversando
amavelmente com o velho mordomo.
O duque bateu  porta dos aposentos da av, e depois abriu-a.
Como j esperava, a velha senhora estava sentada numa poltrona ao lado da
janela, com as pernas apoiadas sobre uma banqueta e cobertas por uma
manta de arminho.
Tinha um pequeno cachorro, King Charles, spaniel ao colo, que se eriou
ao ouvir mexerem na porta, indo ao encontro do duque assim que este
entrou no cmodo.
O duque se abaixou para acariciar o animalzinho, depois foi ter com a
av.
Apesar das marcas de sofrimento, a duquesa era ainda uma mulher bonita e
seus cabelos brancos estavam arrumados muito bem. Usava um colar de
prolas de vrias voltas, anis e uma pulseira que brilhou ao sol, quando
ela estendeu as mos para o neto.
- Valerian, ser que  voc mesmo? Que bom que esteja aqui! exclamou ela,
com grande alegria.
- Sou eu sim, vov - respondeu o duque. - Desculpe no ter vindo visit-
la antes, mas sabe como o prncipe  exigente.
- Sempre foi, at quando era jovem - concordou a duquesa. Mas voc no me
avisou que viria.
- Nem eu mesmo sabia, vov. Estou precisando de sua ajuda. A duquesa
soltou a mo dele, dizendo:
- Se  outra dessas suas cansativas rfs que quer que eu empregue, a
resposta  no! A ltima que voc me convenceu a empregar, zombou de
Simpson com suas impertinncias e a penltima quebrou quase meia dzia de
minhas melhores xcaras de porcelana de Svres!
O duque j ouvira aquela ladainha antes e ia responder, quando a av
continuou:
- Voc j sustenta dois ou trs orfanatos e  l que as rfs devem
ficar. No comigo!
No adiantava explicar-lhe que, a partir de certa idade, as moas tinham
que deixar o orfanato, para dar lugar a outras crianas e que, a essa
altura, tinham que trabalhar.
Puxou uma cadeira para junto da av, dizendo:
- Trago comigo uma rf muito diferente das que a senhora ajudou antes,
vov.
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- No quero saber - afirmou a duquesa, inflexvel. - Por isso, antes de
tentar me convencer, Valerian, a resposta  no!
- Lamento, porque desta moa a senhora iria gostar e eu precisava de sua
ajuda, no s para olhar por ela mas tambm para castigar e fazer justia
contra um homem cujos crimes iriam espantar e horrorizar a senhora.
- Duvido muito - respondeu a duquesa.
Ficaram em silncio. Depois, morta de curiosidade, ela perguntou:
- Quem  esse homem?
- Sir Jarvis Stamford! - disse o duque. A mulher olhou para o neto,
incrdula.
- No  o pai dessa moa por quem Lucien est apaixonado e com quem toda
gente est esperando que se case?
O duque desatou a rir.
- Vov, a senhora  incorrigvel! No h rumor, mexerico ou escndalo,
que mesmo vivendo aqui no campo a senhora no saiba muito antes de mim!
- No tenho mais nada com que me divertir, agora que mal posso sair do
quarto! - retorquiu a duquesa.
- No a estou censurando - disse o duque. - Isso, na verdade, s facilita
as coisas. Sim, sir Jarvis Stamford  o pai da moa por quem Lucien
estava interessado.
Deliberadamente acentuou o tempo do verbo e a duquesa endireitou-se na
poltrona.
- Quer dizer que ele terminou com ela? Ou foi ela? Pelo que ouvi, a tal
jovem estaria disposta a conquistar algum mais importante que Lucien, se
conseguisse.
- vou lhe contar a estria toda desde o princpio, vov, e depois de
ouvi-la vai compreender por que mais ningum poder saber da verdade,
alm da senhora.
Pelo tom de voz dele, a duquesa percebeu que o assunto era srio.
Antes que pudesse comear a falar, a porta se abriu e um criado entrou,
trazendo uma bandeja de prata com duas taas e uma garrafa de champanhe
no gelo.
Colocou-a sobre uma pequena mesa e quando se preparava para servir, o
duque disse, levantando-se:
- Eu mesmo sirvo, Henry.
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- Obrigado, Alteza.
- Diga a Simpsom para ver se miss Andreas, que est com a sra. Meadows,
quer tomar ch e comer alguma coisa.
- Eu direi ao sr. Simpsom, Alteza. A porta se fechou e a duquesa disse:
- Agora conte-me sobre sir Jarvis... e Lucien,  claro. No vou aceitar
essa sua rf, nem deixar que lhe ofeream ch, antes de saber a histria
toda.
O duque entregou uma taa de champanhe  av.
- Sei que o mdico lhe fez restries quanto ao lcool, vov. Mas, quando
escutar o que tenho a dizer-lhe, vai precisar beber alguma coisa.
- O que voc quer dizer  que espera que a bebida me amolea para ceder
aos seus desejos! Garanto que no vou deixar que me tire o bom-senso!
O duque sorriu, serviu-se de um sanduche e bebeu um pouco de champanhe,
antes de comear.
Contou tudo o que tinha acontecido desde que concordara em ir para
Stamford Towers.
A duquesa no o interrompeu. Ficou to interessada que at se esqueceu de
beber o champanhe.
Ouvia tudo com os olhos fixos no rosto do neto, especialmente quando ele
lhe contou sobre como Giona fora espancada e sobre o momento em que ele e
Lucien tinham visto Claribell beijando o amante, perto dos estbulos.
Quando ele terminou, a duquesa disse:
- Sei que voc nunca mentiu, pelo menos para mim, Valerian, e no ia
inventar uma histria to mirabolante que mais parece ter sido fabricada
por sir Walter Scott.
- Parece inverossmel - concordou o duque -, mas garanto que 
absolutamente verdadeira. To verdadeira quanto Giona.
- Que tipo de moa  ela?
- Bonita, inteligente e com sangue grego correndo nas veias. A duquesa
levantou as sobrancelhas, dizendo:
- Pelo que voc acaba de me contar, presumo que esse srdido sir Jarvis
disse que ela era bastarda, apenas para garantir que a moa no falasse
que  sobrinha dele.
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- Tambem acho isso. Tudo faz parte de um plano dele para esconder um
segredo vil!
- Qual ser?
-  o que pretendo descobrir - respondeu o duque. - No h dvida de que
ele pagava ao irmo para ficar no estrangeiro e de que ficou com todo o
dinheiro do pai de Giona, quando este morreu. Tambm devia ter medo que a
sobrinha revelasse o que tentou manter em segredo por tanto tempo.
Fez uma pausa, antes de continuar.
- Devia ser por isso que no permitia que ela visse algum e que a queria
matar, sem ter que chegar a cometer um assassinato.
- Sempre pensei que essas coisas s acontecessem nos livros!
- exclamou a duquesa.
- Pois bem, acontecem na vida real tambm! Mas agora compreende, vov,
porque quero deixar Giona com a senhora? Quero que a transforme na moa
atraente que devia ser, para que, quando chegar o momento oportuno, sir
Jarvis alm de no a ter conseguido matar, no tenha como negar sua
existncia.
- E quando ser esse momento?
- Quando eu estiver preparado! - respondeu o duque, cheio de dio na voz.
Descansando num dos belos quartos da manso, Giona, depois de ter se
lavado e se arrumado melhor que pde, esperava, apreensiva.
Dois criados tinham lhe trazido um ch bastante farto e, apesar de ter
olhado cheia de vontade para os biscoitos quentinhos, os finos sanduches
e os doces apetitosos, conseguira comer muito pouco.
Estava ansiosa demais com o que lhe ia acontecer quando o duque fosse
embora.
No conseguia parar de pensar que talvez fosse melhor ir embora e se
esconder em algum lugar onde sir Jarvis no a conseguisse encontrar, ao
invs de tornar-se um encargo ou talvez at num perigo Para o duque.
Mas no tinha um tosto sequer, nem nada que pudesse vender.
Quando sir Jarvis a trouxera da Itlia para Stamford Towers, estava
traumatizada demais para protestar quando lhe tiraram tudo quanto
Possua, e lhe deram aqueles horrorosos vestidos cinzentos feitos no tear
da casa.
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- Por que tenho que me vestir assim? - perguntara, ainda com coragem para
falar, embora soubesse que o tio no gostava dela.
- Voc vestir o que eu mandar! - respondeu ele, severamente.
- Como uma bastarda que os pais impingiram a este mundo, j tem muita
sorte de no ser mandada para um asilo ou para trabalhar num orfanato,
cuidando de infelizes iguais a voc.
- No vou ficar ouvindo essas mentiras sobre meu pai e minha me! -
respondera Giona, furiosa. - Eles eram casados... eu sei que eram
casados! Pensa que mame, que era filha de um pastor e que acreditava em
Deus... faria uma coisa dessas?
Sir Jarvis nem discutira, limitando-se a bater nela. S depois de apanhar
muitas vezes, ficando cheia de dores e de humilhaes  que Giona
percebeu que no adiantava nada tentar defender seus pais que j estavam
mortos.
Agora tinha medo que, quando o duque fosse embora, a av dele a
desprezasse e novamente fosse tanto quanto uma criada.
A porta se abriu e Giona pensou que fosse a sra. Meadows que voltava para
pegar a bandeja. Mas era o duque.
Ela se levantou correndo, e exclamou:
- Estava com medo... que se tivesse esquecido de mim!
- Desculpe se demorei, mas minha av estava muito interessada em tudo o
que tinha para contar a ela. Agora quero que venha comigo para conhec-
la.
- Eu... eu estava pensando que talvez... - comeou a dizer, trmula.
O duque percebeu o que ela estava pensando e a interrompeu, dizendo:
- Disse para ter confiana em mim. Voc prometeu fazer o que eu quisesse.
Quero que mantenha essa promessa, Giona.
Ela levantou o queixo, orgulhosa e o duque gostou daquela atitude.
Tinha tirado a capa, e apesar do feio vestido cinzento, os cabelos bem
escovados caindo sobre os ombros faziam dela uma figura encantadora.
O duque sabia que a av no deixaria de reparar nas olheiras e na magreza
do rosto da moa.
Estendeu-lhe a mo, dizendo, com um sorriso irresistvel: - Vamos. Assim
que conhecer minha av, ver que no  to assustadora como pode parecer
 primeira vista.
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Giona queria acreditar em todas as coisas boas que ele lhe prometia, e
enquanto iam pelo corredor, o duque sabia que ela ia pensando que nada
poderia ser pior do que os sofrimentos que lhe afligiam em Stamford
Towers.
O duque abriu uma porta e por instantes Giona ficou ofuscada pela luz do
sol, sentindo um agradvel perfume de flores.
Depois conseguiu ver uma senhora de cabelos brancos.
A duquesa lhe estendeu a mo.
- Meu neto me falou sobre voc, Giona, espero que venha a gostar de estar
aqui comigo.
A jovem fez uma reverncia.
Quando seus dedos tocaram nos da duquesa, ela sentiu a mesma sensao de
segurana que experimentara com o duque.
- Receio... estar... lhe causando... um incmodo, madame respondeu,
nervosamente.
- Pois eu acho que voc vai me trazer novas alegrias - disse a duquesa.
Fiquei muito surpreendida e condoda com tudo que ouvi a seu respeito e
meu neto me deu instrues rgidas sobre o que teremos a fazer nas
prximas semanas.
Giona olhou intrigada para o duque, que explicou: - Antes de mais nada, e
embora talvez no esteja muito interessada, sugeri que voc escolha novos
vestidos, ajudada por vov.
Sabia muito bem que nenhuma mulher, jovem ou velha, poderia resistir 
ideia de um novo guarda-roupa, cheio de vestidos modernos. O brilho nos
olhos de Giona no o desapontou.
- Vestidos... novos?
- Dzias de vestidos! - afirmou a duquesa. - E como  meu neto que vai
pagar, no vamos medir as despesas!
O brilho do olhar de Giona se apagou por alguns momentos.
- Mas, madame... eu no... eu acho que no...
- Voc me pagar - disse o duque, gentilmente. - Quando eu provar tudo o
que pretendo e conseguir que voc recupere o dinheiro de seu pai.
A jovem ficou sem fala.
O que o duque estava lhe dizendo era que no s lhe restituiria a fortuna
que lhe pertencia, mais a certeza de que era filha legtima. Sua voz
tremeu, ao murmurar:
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- Agora... sei que voc no  Persetis, nem So Miguel... mas o prprio
Apolo... trazendo luz... e maravilhando o mundo ao conduzir a...
carruagem pelo cu.
Antes que conseguisse evitar, lgrimas de felicidade correram por seu
rosto delicado.

CAPITULO V

Depois do caf da manh, o duque foi se sentar em sua escrivaninha na
biblioteca, e encontrou uma pilha de cartas esperando por ele.
Algumas delas eram documentos e convites oficiais, j abertos pelo sr.
Middleton. As que eram de carter pessoal ou confidencial estavam numa
pilha separada.
O duque reparou que duas delas eram de mulheres, desejosas de conseguir
as atenes dele, mas, no momento, tinha muito pouco tempo disponvel
para gastar com elas.
Pegando uma outra carta, reconheceu a letra de sua av e abriu-a cheio de
ansiedade, o que no era comum nele.
H duas semanas que no tinha notcias e no sabia o que estava
acontecendo na casa da duquesa. Fizera um esforo enorme para no mandar
um mensageiro com um bilhete, e para no pedir a seu secretrio que
procurasse saber o que se passava por l.
Tinha resolvido que era importante haver pouca comunicao entre ele e
Giona, at que pudesse desmascarar sir Jarvis Stamford.
Apesar de saber que podia confiar em seus empregados, havia
- Sempre a possibilidade de algum comentrio descuidado ou de uma
Pergunta indiscreta, que desencadearia uma avalanche de mexericos.
Queria, a todo o custo, que sir Jarvis no tivesse a menor suspeita de
que conhecia o paradeiro de Giona.
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A esta altura, sir Jarvis devia estar intrigado e preocupado com o
comportamento do visconde Lucien.
O jovem contara a seu tutor que continuava recebendo mil e um convites
para ir a Stamford House em Grosvenor Square, alm de cartas de
Claribell, que, embora no comentasse, eram certamente de natureza
apaixonada.
O duque pensou, satisfeito, que pelo menos ele e Lucien tinham conseguido
confundir sir Jarvis e sua hipcrita filha, deixando-os preocupados com o
que teria sado errado durante a visita a Stamford Towers.
Abriu a carta, com o braso dos Alverstode, e na caligrafia rpida e
ainda perfeitamente legvel da av, leu:
"Meu querido neto:
Gostaria imensamente que viesse me visitar, pois tenho algo para lhe
mostrar que, estou certa, vai lhe agradar e surpreender.
Creio que seria uma boa ideia trazer Lucien com voc. Calculo que esteja
se comportando como era de se esperar, o que no  bom nem para
reputao, nem para a sade do pobrezinho.
Venha assim que puder, pois estarei esperando por voc, ansiosamente.
Da av que o estima muito Charlotte Alverstode"
O duque sorriu quando acabou de ler. Como sempre, a av sabia de tudo o
que estava acontecendo em Londres e consequentemente estava preocupada
com o comportamento de Lucien.
Como ela mencionara, era natural que depois da traio de Claribell, o
jovem tentasse consertar seu corao partido, vivendo numa orgia
desmedida.
Todos os dias o duque era informado por amigos ou por pessoas
pretensamente bem intencionadas, a respeito do que Lucien andava fazendo.
No havia nada particularmente repreensvel nas atitudes do rapaz, a no
ser arruaas em lugares pblicos, que, embora no passassem
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de sales de baile de quarta categoria e bordis, eram sempre
desagradveis.
Andava bebendo mais do que o normal e como nunca fazia nenhum exerccio,
estava com o rosto muito abatido.
Mas o duque tinha o pressentimento de que, por trs do pedido da av para
levar Lucien com ele, se escondia outro motivo.
com seu jeito sensato e direto de dizer as coisas, a duquesa costumava
afirmar que o melhor remdio para um amor que se acaba,  outro amor. E
agora, com toda a discrio habitual, ela insinuava que Giona poderia
apagar a lembrana amarga de Claribell.
O duque pensou que aquela ideia devia ter lhe ocorrido antes.
Lucien e Giona tinham a idade certa um para o outro e, alm disso, melhor
castigo poderia receber Claribell, do que ver o homem com quem queria
concretizar suas ambies, casar-se com a prima a quem ela desprezara?
Havia um sorriso de satisfao nos lbios do duque, quando colocou a
carta da av sobre a escrivaninha e tocou a campainha de ouro.
Quase imediatamente o sr. Middleton entrou na biblioteca.
- Mande um mensageiro ter com Sua Senhoria, Middleton, pedindo para que
ele venha comigo para o campo esta tarde. Diga a Sua Senhoria que faremos
um almoo leve aqui em casa e que, por favor, no se atrase.
- Sim, Alteza - respondeu o sr. Middleton.
- Envie o recado o mais rpido possvel - ordenou o duque.
- Depois temos que despachar esta correspondncia.
As cartas no lhe tomaram o tempo que esperava e o duque teve tempo de
meditar melhor a respeito da sugesto da av sobre a possibilidade de
Lucien se apaixonar por Giona.
No devia ser tarefa difcil, uma vez que Lucien estava sempre se
apaixonando por alguma jovem bonita.
O duque tinha a impresso de que, no passado, o jovem dera preferncia s
loiras, mas podia ter sido apenas mera coincidncia.
Conhecedor do assunto como era, tinha a certeza de que, assim que Giona
tivesse cores mais saudveis e passasse a andar bem vestida, tornar-se-ia
sensacional.
Era diplomata demais para fazer qualquer insinuao a Lucien. Limitar-se-
ia a dizer que era importante que os dois fossem visitar a av e
conversar um pouco com Giona.
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- Voc descobriu alguma coisa importante sobre esse vigarista do
Stamfqrd? - perguntou Lucien, sofregamente.
Chegara vestido na ltima moda, como de costume, mas bastou observ-lo
melhor para o duque perceber que tinha bebido demais na noite anterior e
que no dormira direito. No comeu praticamente nada do almoo delicioso
que o chef preparara e o duque no fez qualquer comentrio quando o viu
beber muito, ao invs de comer.
Estavam acabando o almoo, quando o sr. Middleton entrou correndo na sala
de jantar.
Os criados j tinham servido o caf e se retirado com uma revern cia,
mas como no era habitual o duque ser incomodado durante at refeies,
olhou surpreendido para seu secretrio que se aproximava rapidamente.
- Pensei que gostaria de saber imediatamente, Alteza, que nossas
investigaes em Dover foram um sucesso!
- Voc quer dizer que descobriram onde foi o casamento de Jame Stamford e
Elizabeth Hamilton?
- Exatamente, Alteza! Aqui esto os documentos.
O sr. Middleton lhe estendeu uns papis, que o duque leu, pensando em
como Giona ficaria emocionada ao t-los nas mos.
Os pais dela tinham se casado numa pequena vila perto de Dovei a 9 de
agosto de 1799, conforme dizia a cpia do registro da igreja.
- timo! - exclamou o duque com satisfao. - Obrigado, Middleton.  um
passo na direo certa.
- O que mais voc descobriu? - perguntou Lucien. - Certamente a esta
altura j conseguiu alguma boa acusao contra aquele miservel!
- Tenho que lhe pedir para ter um pouco mais de pacincia, milorde -
respondeu o sr. Middleton. - Tenho trs excelentes detc tives em
Liverpool, neste momento.
- Liverpool? - exclamou o duque.
- Os meus informantes disseram que o escndalo do qual Vossa Alteza
parecia lembrar-se, aconteceu em Liverpool.
- Por que l? - perguntou Lucien.
- Porque era relacionado com o comrcio de escravos, milorde, e a maioria
desses navios negreiros utilizava o porto de Liverpool.
O duque se endireitou na cadeira.
82
Voc est insinuando que a imensa fortuna de sir Jarvis veio
do comrcio de escravos, Middleton?
-  verdade, Alteza. Apesar de o pai dele j ser muito rico, sir Jarvis
multiplicou essa fortuna centenas de vezes!
- Eu devia ter imaginado! - comentou o duque com desprezo.
- Naquela poca, esse comrcio ainda no era considerado criminoso -
disse o sr. Middleton, respeitosamente. - Contanto que fosse feito dentro
das normas legais.
Lucien ouvia as palavras do homem com todo o interesse.
- Ento o que ele fez foi algo realmente criminoso?
-  o que teremos de provar - retorquiu o sr. Middleton. Mas creio que
dentro de poucos dias poderei apresentar provas de que sir Jarvis agiu de
maneira ilegal e vergonhosa.
O duque puxou a cadeira para trs, cruzando as pernas.
- Quero os detalhes agora, Middleton!
- No, por favor, Alteza - suplicou o sr. Middleton. - No quero lhe dar
esperanas e no ltimo momento no poder provar coisa alguma.
Olhou, suplicante, para o duque e continuou:
- Como Vossa Alteza sabe, temos um adversrio esperto e traioeiro, que
usar todo o tipo de armas para se libertar da armadilha que lhe estamos
preparando. Temos que deix-lo sem sada.
- Entendo - disse o duque. - Faa como achar melhor, Middleton. Mas, com
toda a franqueza, estou ansioso por saber mais e acho uma frustrao ter
que encontrar sir Jarvis em todas as corridas de cavalo e atur-lo nos
clubes mais decentes desta cidade enquanto nada pode ser provado contra
ele.
- Espero que ele nunca mais possa mostrar a cara em lugar algum
frequentado por verdadeiros cavalheiros! - exclamou Lucien.
 Falava contra sir Jarvis, mas o duque sabia muito bem que toda aquela
raiva era contra Claribell, pela maneira cruel como o trara.
Lucien ainda estava muito ferido. Aquele amor fora profundo, no morreria
facilmente...
- Vamos, Lucien - disse o primo, levantando-se - Vamos embora para o
campo. L, pelo menos, o ar  limpo e o sol est brilhando.
O visconde no pareceu muito entusiasmado com os prazeres que iria
encontrar, mas obedientemente seguiu o tutor e, dez minutos depois,
estavam a caminho.
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O duque conduzia seus garanhes com tal prazer, que, durante certo tempo,
esqueceu-se do jovem infeliz que ia seu lado.
 velocidade em que viajavam, levaram menos de duas horas para chegar a
Alverstode. Quando alcanaram a porta da manso, o duque batera seu
prprio recorde de velocidade.
A casa de tijolos vermelhos, estilo rainha Anne, estava encantadora,
banhada pelo sol da tarde e o duque observando aquela simetria perfeita,
pensou o mesmo em relao s feies de Giona.
Ele e Lucien saltaram do faetonte e os criados levaram o veculo para
as cocheiras. Logo Simpson apareceu no alto da escada para receb-los.
- Nem me atrevi a esperar que Vossa Alteza chegasse aqui antes de amanh
- disse Simpson.
- Quis fazer uma surpresa a Sua Alteza - respondeu o duque.
- Onde est ela?
Achou que o mordomo ia dizer que estava l em cima, mas, em vez disso,
ele respondeu:
- Est no salo, Alteza, e miss Giona est com ela.
Era tudo o que o duque queria saber. Entrou rapidamente e abriu a porta do
salo.
Parou  porta, esperando a exclamao de boas-vindas da av que estava
sentada ao sol, junto da janela, com Giona a seu lado.
- Oh, Valerian. Que bom ver voc! - disse a velhinha, alegremente.
O duque deu um passo  frente e Giona veio ter com ele, correndo.
Os olhos dela brilhavam como raios de sol, tinha o cabelo penteado de
maneira atual e usava um lindo vestido branco, com babados e flores.
Giona segurou as mos de seu protetor, dizendo numa voz to alegre que
mais parecia a de uma criana:
- Voc, veio! Eu estava... morrendo de saudade... e voc est aqui!
Era uma verdadeira exploso de alegria.
- Ser que  mesmo voc, Giona, ou estou sendo apresentado  uma jovem
desconhecida? - o duque indagou, sorrindo.
Giona desatou a rir e, como se de repente se tivesse arrependido de ser
to impetuosa, fez uma respeitosa reverncia.
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Estou profundamente honrada em rever Vossa Alteza! - disse
com  um ar afetado, mas seus olhos estavam rindo.
- Deixe-me olhar para voc!
Em vez de ficar acanhada, ela abriu os braos, exclamando:
- Por favor, olhe! Sua av e eu estvamos ansiosas por ter sua aprovao.
Estava vestida na ltima moda, mas o duque no conseguia tirar os olhos
do rosto dela.
As linhas de seu rosto estavam mais suaves, as olheiras tinham
desaparecido e o brilho dos olhos e do cabelo mostrava bem que se tinha
alimentado adequadamente. A sensao de segurana e felicidade tinham
operado o milagre que Valerian previra.
Ele no disse nada e passado um momento Giona perguntou, ansiosa:
- No... ficou... desiludido?
- Como poderia ficar? - retorquiu o duque. - Voc est maravilhosa!
A duquesa estava sendo cumprimentada por Lucien, que tinha acabado de
entrar.
- Estou contente em v-lo, meu querido rapaz - disse a duquesa -, e agora
quero que conhea minha convidada, de quem voc j ouviu falar, embora
nunca a tenha visto.
- No, eu nunca a vi - respondeu Lucien.
Estendeu a mo e Giona fez uma reverncia. O sorriso de Lucien apagou os
sinais de cansao que tinha no rosto. O duque foi dar um beijo na av,
dizendo:
- Presumo que gastaram uma fortuna!
- Ento acertou - respondeu ela. - E prepare-se, porque Giona e eu vamos
gastar muito mais ainda.
- S... se eu... tiver condio para isso - afirmou Giona, suavemente,
antes que o duque pudesse dizer alguma coisa.
Sabia que aquele comentrio escondia uma pergunta e em resposta ele
segurou no brao dela, levando-a at as janelas que davam para o terrao.
- Posso deixar Lucien lhe fazendo companhia por uns instantes, vov?
Tenho uma coisa muito importante para dizer em particular  Giona.
- Quero que Lucien me conte muitas coisas - respondeu a duquesa,
85
sorrindo de maneira irresistvel, apesar da idade. - Estou muito
triste com esse sofrimento cruel e desnecessrio pelo qual voc est
passando - disse docemente, dirigindo-se ao rapaz.
Afastando-se com Giona, o duque sabia que na volta Lucien j teria
chorado todas as mgoas e desabafado com algum to compreensiva, que s
lhe faria bem.
O seu conhecimento humano lhe dizia que o jovem achava ainda pior a
espera pela vingana do que a frustrao amorosa.
Por outro lado, no pudera confiar em nenhum dos seus amigos. Eles iriam
criv-lo com perguntas, tentando descobrir o porqu  se ter
desinteressado por Claribell, intrigados com o comportamento dele, que
era mais selvagem do que nunca.
E o visconde no poderia responder nada, porque nada do qe pudesse dizer
desculparia seus excessos.
- Vov vai reconfort-lo - garantiu o duque a si mesmo. Levou Giona para
o jardim, atravs dos canteiros de rosas, at
caramancho de madressilvas.
Sentaram-se em confortveis almofades de seda. O duque olhou para Giona,
achando que ela era uma das jovens mais lindas qi jamais vira.
Tivera receio de que, uma vez bem vestida, o ar grego da jovem
desaparecesse ou, pelo menos, diminusse.
Mas se enganara. Giona parecia ainda mais grega, e nos olhos dela reviu a
conhecida expresso de idolatria com que o contemplava.
- O que tem... para me dizer? - perguntou, insegura.
- Tenho uma coisa para lhe dar - respondeu o duque, entregando-lhe os
papis que o sr. Middleton lhe entregara.
A jovem pegou neles com as mos trmulas e seus olhos percorreram o
documento com avidez. O duque viu a onda de excitao e alegria que se
apossava dela.
Por alguns segundos, nada conseguiu dizer. Depois, num fio de voz,
murmurou:
- Era verdade... eu sabia... que era!
- Foi uma grande ajuda, voc saber exatamente o ms e o ano e achar que
tudo se passara no distrito de Dover.
Ela releu o documento, como que para ter certeza de que no estava
sonhando.
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Depois, levantou o rosto para Valeriam e ele viu que aqueles olhos
cinzentos brilhavam como nunca.
- Como... pde... ter feito... isto... por mim? E como poderei... lhe
agradecer?
- Sabia que voc ficaria feliz.
- Mais feliz do que  possvel demonstrar. Apesar de saber que no era
verdade, o simples fato de tio Jarvis ter caluniado minha querida me,
fazia-me sentir coberta de lama.
- E agora creio que est voando at o cimo do Olimpo - disse o duque,
sorrindo.
- Junto... com voc - disse Giona rapidamente. - Porque sem voc... eu
teria medo.
Sabia o que ela estava pensando e disse suavemente:
-  s questo de esperar mais um pouco, at que seu tio seja
desacreditado. Depois, ele nunca mais poder constituir uma ameaa para
voc.
- No... consigo acreditar... que isso venha a acontecer.
- Ento confie em mim - disse o duque. - Entretanto, como sabe, ter que
ficar aqui com minha av e ningum poder saber de sua verdadeira
identidade.
- Sua Alteza tem sido maravilhosamente gentil comigo... e eu estou muito
feliz. Por outro lado, continuo com medo... de vir a coloc-lo... em
situao perigosa.
- Continua se preocupando comigo?
- Claro. No conseguiria pensar em outra coisa... porque se voc no me
tivesse socorrido... a esta hora... eu poderia estar morta.
A voz saiu num soluo e ele percebeu que a jovem estava ainda cheia de
temor.
- Voc tem que esquecer o passado - disse ele. - Da mesma forma que
Lucien tem que esquecer o que lhe aconteceu. Sugiro que seja gentil com
ele. Est precisando de sua ajuda.
- Sua av me contou que seu primo tem tido um comportamento absolutamente
selvagem. Posso entender muito bem que esteja tentando esconder seu
sofrimento das outras pessoas.
-  verdade - concordou o duque. - Mas, por outro lado, essas atitudes
no lhe fazem bem algum e se tiver uma oportunidade, tente despertar-lhe
novos interesses.
Reparou que ela o olhava intrigada, mas no fez qualquer pergunta.
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- Por favor, conte-me o que... tem feito... e quais so as ltimas
notcias do Parlamento.
O duque ficou admirado por aquele interesse, mas contou-lhe as leis que
tinham sido aprovadas pela Casa dos Lordes e sobre o discurso que iria
fazer.
- Sua Majestade est realmente mal de sade? - perguntou Giona, quando
ele acabou de falar.
- Muito mal - respondeu o duque. - Acho que no viver por muito tempo.
- Ento o regente ser rei - disse a moa. - Hoje em dia, como tenho que
esperar como ele, comeo a entender o que papai queria dizer com "ter a
alma em compasso de espera". No h nada mais difcil.
O duque desatou a rir.
-  o que voc est fazendo?
- Minha alma no sei - respondeu Giona -, mas a mente est cheia de
impacincia e deixa meu corpo nervoso e sem descanso.
- Apesar de tudo - comentou ele sorrindo -, agora que est elegantemente
vestida, voc parece muito diferente daquela pequenina sombra cinzenta
que encontrei sentada num tronco cado.
- Nos meus sonhos - disse Giona -, eu vejo sempre voc, vindo ao meu
encontro. Agora sei, embora naquela altura no tivesse percebido... que
vinha envolto... na luz de Apolo.
- Parece muito potico - comentou o duque, brincalho.
- E , e  por isso...
Giona parou de falar e o duque olhou para ela, intrigado, antes de
perguntar:
- Andou escrevendo uma poesia sobre o que aconteceu? Ela corou ao
responder:
- Eu no queria lhe dizer... mas fiz um poema para... voc. Apenas...
tentei expressar... em versos... o que sinto por voc... porque  mais
fcil que em prosa.
- Sinto-me honrado - disse o duque. - Quando o poderei ler?
- Nunca!
Ele ficou admirado e Giona explicou:
- No est bem-feito. No existem palavras, nem na poesia, que possam
descrever voc e quando acabei de escrever... rasguei a
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folha... envergonhada por no ser capaz... de converter meus sentimentos
em palavras.
- Talvez seja um problema de lngua - sugeriu o duque. - Tente escrever
em grego.
Ela bateu palmas, exclamando:
- Que ideia maravilhosa! Tentarei e ento acho que no terei mais tanta
vergonha de lhe mostrar.
- Eu sei ler grego... - disse o duque, imaginando se alguma vez conhecera
outra moa capaz de lhe escrever um poema em grego.
Depois resolveu se recriminar, dizendo a si mesmo que tinha que encorajar
Giona a se concentrar em Lucien. No devia se deixar levar por loucas
esperanas...
Enquanto continuavam a passear pelo jardim, disse  moa:
- Agora faa o que lhe digo. Tente ajudar Lucien. Eventualmente, 
possvel que tenha sido bom para ele amar e perder esse amor. No momento,
entretanto, est sendo uma experincia muito dura.
Foi uma grande surpresa para o duque ver que a av estava suficientemente
bem disposta para jantar na sala com eles. Depois observou quando Giona
se encaminhou para o terrao e Lucien a acompanhou, logo a seguir.
Ficaram apoiados na sacada de pedra, conversando tranquilamente. O duque
no conseguia ouvir o que diziam, mas percebeu que Lucien falava com
entusiasmo, num modo muito diferente do que seu tutor o ouvira se
expressar nos ltimos quinze dias.
- Formam um par encantador - comentou a duquesa.
- Sim, os dois so realmente muito bonitos - respondeu o duque.
- Giona tem a estabilidade e a inteligncia de que um jovem como Lucien
precisa - continuou a duquesa. - Ela  muito doce. Todos os empregados a
adoram!
- Ela  de fato uma jovem incomum - concordou o duque.
- Estou muito feliz por t-la aqui. Sinto-me melhor do que nunca.
- Sempre disse que a senhora no tinha nada de errado, vov, a no ser o
tdio que a rodeava.
- Bem, com Giona ningum pode sofrer de tdio. Mesmo que ela no tivesse
uma estria to complicada, que a faz parecer mais uma herona de
romance, ainda assim eu a acharia adorvel.
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O duque sabia que, partindo da av, aquelas palavras constituam um
elogio muito grande. Ela raramente apreciava mulheres jovens. Sem dvida,
com aqueles atributos todos, seria surpreendente se Lucien no trocasse
logo o amor antigo por um novo.
Olhou para fora, mas Giona e o visconde tinham sado do terrao.
Dizendo a si mesmo que era isso que queria que acontecesse, lembrou-se da
primeira vez que vira Giona, sentada no tronco cado.
Desde o primeiro momento notara que a jovem era muito diferente do que
parecia e, mesmo com aquele horrvel vestido cinzento, achou-a bonita.
Voltou a olhar para a janela. Logo as estrelas iriam despontar no cu e
os ltimos raios de sol desapareceriam entre as rvores.
Recordou novamente o anoitecer que vira Giona ao luar e lembrou-se do
brilho de adorao que lera nos olhos dela.
Gostaria de adivinhar o que ela e Lucien estariam dizendo um ao outro.
Desejaria saber tambm se ela estaria olhando para o visconde com os
mesmos olhos de adorao.
Por alguma razo que no podia entender, de repente, ficou profundamente
irritado.
Levantou-se e foi at a mesa, onde Simpson deixara o brandy e vrios
copos.
Sem dizer uma palavra, serviu-se e, com o copo na mo, atravessou a sala
e foi olhar para o jardim.
A essa altura, calculou que Giona e Lucien estivessem sentados no
caramancho, envoltos no perfume da madressilva e das rosas.
Devia ser uma cena muito romntica, e tentou imaginar o que Lucien
estaria fazendo.
Ser que a estava assustando com sua impetuosidade? Ou expressando a sua
admirao fervorosamente?
- Diabos! - praguejou entredentes. - Pode ser at que tente beij-la!
Um sentimento desconhecido crescia dentro do duque.
No o conseguia explicar, nem queria. Sabia apenas que era errado Giona
estar sozinha no jardim com um homem que mal acabara de conhecer. Aquilo
parecia bastante imprprio.
O duque pousou o copo sobre a mesa, sem ter tocado no brandy.
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- Vov, acho que vou dar uma volta l fora - disse ele. - Est muito
abafado aqui dentro.
- Claro, querido! Concordo com voc. Hoje est muito quente. Sem esperar
mais nada, Valerian saiu para o terrao, descendo as
escadas que davam para o jardim. Seus passos ecoavam nas pedras.
A av ficou olhando para ele, com uma expresso divertida e intrigada no
olhar. Afinal, tinha lidado com muitos homens ao longo dos anos.
Depois, uma ideia lhe passou pela cabea e, com um sorriso nos lbios,
recostou-se na cadeira, confortavelmente, aguardando a volta de seus
convidados.
O duque andou em direo ao caramancho, porm verificou, surpreendido,
que l no havia ningum.
- Que diabo! Onde ser que eles se meteram?
Giona e Lucien tinham atravessado o roseiral e ido at o labirinto. Assim
que l chegaram, Lucien falou:
- Quando eu era garoto, detestava este labirinto, porque me metia medo.
Agora continuo odiando, porque me lembra minha prpria vida; um monte de
passagens que no d em lugar algum e que me faz perceber que s andei
perdendo tempo.
Falou amargamente e Giona disse:
- Se as pessoas conseguissem aquilo que desejam logo na primeira
tentativa, imagine como a vida seria aborrecida.
- Aborrecida?
- Claro, a gente deixaria de tentar.
Percebendo que Lucien no compreendera, Giona tentou explicar melhor:
- Suponha que voc soubesse sempre qual o cavalo que iria ganhar a
corrida? Que interesse teria? Se conseguisse acertar em todos os pssaros
que quisesse caar, no valeria a pena ir  caa. com o resto da vida 
igual. O fracasso s faz com que se deseje ainda mais a vitria.
- Creio que entendo agora o que voc quer dizer - disse o visconde. - Mas
 muito diferente, quando temos desiluses com... pessoas.
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- A questo  que no devemos censurar os outros, mas a ns prprios.
O visconde olhou para ela, com espanto.
- Voc acredita nisso? - indagou ele.
- Claro! Acredito que o instinto  a coisa mais preciosa que temos. Se
nos desiludimos com o carter de algum, a culpa  nossa, porque nunca
devemos esperar das pessoas mais do que aquilo que so capazes de dar.
Fez uma pausa.
- Continue - pediu o visconde. - Estou tentando seguir o seu raciocnio.
- Nossos fracassos so como flores que murcharam depressa demais; ns as
jogamos fora. Mas h milhares de outras esperando para serem apanhadas.
Se pensar bem, isso  emocionante. Temos muitas alternativas ao alcance
de nossa mo.
Lucien ficou olhando para ela, depois desatou a rir.
- Voc  extraordinria! Completamente diferente de qualquer outra garota
que eu tenha conhecido.
Giona sorriu.
- Se  verdade, deve ser fruto de minhas viagens pelo estrangeiro. O
mundo faz a gente entender que h seres maravilhosos em naes to
diferentes. S  pena que na vida de uma pessoa no haja tempo para se
conhecer tudo.
- Acho que o primo Valerian me disse que voc vivia no estrangeiro.
- Viajei muito - disse Giona -, e voc devia fazer o mesmo. Percebeu que
essa ideia nunca ocorrera a Lucien e continuou:
- No pode calcular como a ndia  maravilhosa e diferente do resto do
mundo. No so s os indianos que so encantadores e tm boas maneiras,
mas a prpria diversificao de castas e credos que faz que a gente
aprenda muito com eles.
Giona olhou para o pr-do-sol.
- Na minha viso, a ndia  carmim e ouro. Brilhante e misteriosa, um
mistrio que faz parte do corao e da alma das pessoas e que nunca se
consegue esquecer.
Giona ficou emocionada e o visconde, olhando para ela, indagou:
- O que me impede de ir at l, ver com meus prprios olhos e talvez
sentir o mesmo que voc?
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- Se pode gastar esse dinheiro, v visitar a ndia - aconselhou Giona. -
A falta de dinheiro  o principal obstculo para a maioria das pessoas.
O visconde fez uma exclamao repentina:
- Voc resolveu o assunto para mim! Respondeu  pergunta que me atormenta
h quinze dias!
- Que pergunta? - indagou Giona.
- O que fazer de minha vida - respondeu ele - e, para ser honesto, eu me
perguntava tambm como poderia me esquecer de um amor frustrado...
Lucien disse as ltimas palavras em voz baixa e Giona se apressou a
acrescentar:
- Achei que voc estava se sentindo assim, por isso  que lhe aconselhei
a sair pelo mundo!
- Claro! - concordou o visconde. - Mas no sabia para aonde ir e no
queria ficar sozinho em outro lugar da Inglaterra.
- No, claro que no! - disse Giona. - Voc s iria se sentir pior e
ficaria lamentando o passado, o que no levaria a nada.
Contemplando o pr-do-sol novamente, a jovem profetizou:
- Um futuro novo est esperando por voc, um futuro estranho, excitante,
diferente de tudo quanto possa ter visto ou conhecido antes. Mas, se
achar que a ndia no  to maravilhosa quanto descrevi, ento poder ir
a outro pas. Existem muitos que lhe daro novas ideias e creio que novas
ambies tambm.
O visconde respirou fundo e agradeceu:
- Obrigado. Voc me mostrou a sada do labirinto e agora poderei
encontrar meu caminho!
Giona virou-se para ele sorrindo. O visconde levou a mo dela aos lbios.
- Obrigado - disse novamente, beijando-lhe a mo. Contornando uma cerca
de trepadeiras, o duque viu Giona e Lucien
na entrada do labirinto. O visconde beijava graciosamente a mo da jovem.
Teve que admitir que seria impossvel encontrar dois jovens mais
elegantes. Eles formavam um par realmente romntico, mas aquele quadro
no lhe dava nenhum prazer.
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Em vez disso, sentiu todo seu corpo queimar de raiva, parecendo que
olhava para os dois atravs de uma nuvem vermelha como o pr-do-sol.
Inteligente como era, teve que admitir que, inexplicavelmente, estava
sentindo cime!
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CAPITULO VI

Valerian passou a noite agitado, tentando se convencer de que aquilo que
sentira ao ver Lucien beijando a mo de Giona no era cime. Disse a si
mesmo que bebera demais  hora do jantar e que estava tenso por ter
conseguido saber to pouco a respeito de sir Jarvis.
Fosse l o que fosse, era absolutamente ridculo! Na sua idade, como iria
prestar ateno a uma garota de dezoito anos?
Pela milionsima vez, teve que garantir a si prprio que sua preocupao
para com Giona era totalmente impessoal.
Seu principal objetivo era levar sir Jarvis  justia, tanto pela maneira
coma tratara uma garota que era pouco mais que uma criana, quanto pela
traio que ele e a filha estavam preparados para inflingir a Lucien.
Mas, por mais que tentasse, no conseguia deixar de pensar em Giona
centenas de vezes durante o dia, em sua beleza grega e na expresso de
seus olhos quando olhava para ele.
Ao retornar  Alverstode House, tentava se persuadir que fossem quais
fossem seus sentimentos em relao a Lucien tinham sido desnecessrios.
Enquanto passeavam, Lucien anunciou:
- Decidi ir  ndia!
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-  ndia? - exclamou o duque, surpreso. - Quem lhe meteu essa ideia na
cabea?
- Giona. Ela me convenceu de que seria uma boa ideia e quero ir embora o
mais rpido possvel.
Houve um curto silncio, e depois o duque perguntou:
- Ela est pensando em ir com voc?
- No, claro que no! Por que acha que ela quereria ir comigo? Alm do
mais, quero ir sozinho.
- Sim,  claro - concordou o duque. - Pensando bem, creio que ser tima
ideia voc ir viajar.
Nitidamente satisfeito com a aquiescncia do tutor, Lucien falou
entusiasmado sobre os lugares que queria visitar, at alcanarem
 Alverstode House.
Como o duque pretendia que ningum suspeitasse que Giona estava com sua
av, deixara bem claro onde ele e Lucien estariam.
Ao chegar, disse, casualmente, diante dos empregados que havia jantado em
casa da duquesa-me.
As notcias na propriedade corriam com o vento e era certo que, a esta
altura, os empregados, e muito mais gente, j deviam estar sabendo que a
av tinha uma hspede, mas ele esperava que ningum suspeitasse que fosse
Giona.
Assim que se viu sozinho, ps-se a pensar em como ela estava linda com o
vestido novo e no carinho e sinceridade com que sua av se referia a ela.
Nessa noite acontecera uma coisa inesperada: Giona tentara afastar Lucien
e, sendo assim, seria muito difcil, mesmo para uma pessoa experiente
como a duquesa, fazer com que a jovem se interessasse pelo visconde.
- Acho que ainda  muito cedo para ele pensar em outra moa, depois do
que lhe aconteceu com Claribell - disse o duque a si mesmo, novamente
intrigado com o sentimento que experimentara ao ver Lucien beijando a mo
de sua protegida.
Hibbert o acordou cedo e Valerian foi montar a cavalo sozinho. No havia
a menor possibilidade de Lucien se levantar quela hora para acompanh-
lo.
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Resistiu ao impulso de ir em direo  casa da duquesa e galopou pelo
parque na direo oposta.
O caf estava na mesa, esperando por ele, que chegou um pouco mais tarde
que o habitual e j estava acabando de comer, quando o mordomo anunciou:
- O sr. Middleton acaba de chegar de Londres, para ver Vossa Alteza.
- O sr. Middleton? - exclamou o duque, apreensivo.
Antes de poder dizer mais alguma palavra, o secretrio adentrou  sala de
jantar.
- Deus do cu! - exclamou o duque. - O que o traz por aqui a esta hora da
manh? A casa pegou fogo, ou me roubaram alguma coisa?
- Nada disso, Alteza - respondeu o sr. Middleton.
Esperou que o mordomo sasse da sala e fechasse a porta, para depois
falar:
- Ontem  noite tomei conhecimento de novidades que achei melhor
transmitir a Vossa Alteza o mais rpido possvel.
- Sobre sir Jarvis?
O sr. Middleton assentiu com a cabea.
- Sente-se e conte-me tudo - ordenou o duque. - Quer uma xcara de caf?
- Obrigado, tomarei depois - respondeu o sr. Middleton. - Este assunto 
mais urgente.
- Bem, creio que sim. Voc deve ter sado de Londres pela madrugada!
O sr. Middleton sentou-se, tirando alguns papis da pasta.
- O senhor estava absolutamente certo, Alteza, ao suspeitar que havia
qualquer escndalo envolvendo sir Jarvis... e a verdade  bem pior do que
imaginvamos.
O duque se recostou na cadeira, com um ar satisfeito.
- J era de nosso conhecimento - continuou o sr. Middleton que o pai de
sir Jarvis fizera fortuna com o comrcio de escravos e que sir Jarvis a
multiplicara inmeras vezes.
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- Os navios deles ficavam baseados em Liverpool, no? - interrompeu o
duque.
- A maioria deles - concordou o secretrio. - Nem  preciso acrescentar
que ele possua a fama de estar entre os comerciantes de escravos mais
avarentos e cruis.
- J devia imaginar - comentou o duque.
- No entanto, em 1800, ele se suplantou - continuou o sr. Middleton. - Um
dos navios de sir Jarvis, trazendo um carregamento de escravos da frica,
foi impedido de entrar no porto de Savana, visto que alguns dos negros a
bordo estavam com febre amarela.
O duque sabia muito bem que isso exigiria uma rigorosa quarentena, uma
vez que a febre amarela  uma doena infecciosa.
- Nessa ocasio - continuou o secretrio -, sir Jarvis estava em Savana,
esperando receber um alto preo pelos escravos que iam ser desembarcados
e colocados em palhoas  espera de compradores que os fossem examinar.
O duque, conhecendo esses pormenores, acenou com a cabea, para que ele
continuasse.
- Aparentemente, sir Jarvis ficou furioso quando o navio foi obrigado a
ancorar fora do porto e no conseguiu, por mais que tentasse, fazer com
que as autoridades mudassem de opinio. O navio no entraria, at que as
autoridades sanitrias o permitissem.
O sr. Middleton parou para tomar flego e o duque indagou, ansioso:
- E depois, o que aconteceu?
- Parece que, segundo as informaes de meus homens, sir Jarvis mudou
totalmente de atitude. Informou a todos de que aquelas precaues eram
imprescindveis  de que sentia apenas pelo comandante e pela tripulao,
obrigados a permanecer dentro do navio.
O duque levantou as sobrancelhas, espantado, mas no interrompeu.
- Na verdade, parecia to preocupado com eles que mandou para bordo
vrios barris de rum, a fim de que, pelo menos, pudessem se divertir um
pouco enquanto esperavam.
O sr. Middleton baixou a voz, quando comentou:
- O rum devia ser bem forte, porque nessa mesma noite o navio pegou fogo
e ningum estava acordado para dar o alarme!
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- O que voc quer dizer  que a bebida estava drogada?
- Foi uma suposio difcil de provar - explicou o sr. Middleton. - O
navio queimou rapidamente e houve pouqussimos sobreviventes.
- Por qu?
- Porque nos navios de sir Jarvis todos os negros ficavam acorrentados no
poro. Essa prtica no era comum no comrcio de escravos, a no ser em
navios onde ocorriam motins ou onde havia criaturas desesperadas que
tentavam se lanar ao mar.
- Ento eles no tiveram possibilidade de salvao?
- Nenhum deles sobreviveu. Apenas dois membros da tripulao se salvaram,
ficando, todavia, muito queimados.
-  a estria mais monstruosa que j ouvi! - gritou o duque.
- Agora chegamos ao ponto crucial de nossa investigao, Alteza. A
companhia de navegao pediu uma larga indenizao  companhia de seguros
e foram eles que levantaram a suspeita de que o incndio teria sido
criminoso.
O duque ia dizendo qualquer coisa, mas o sr. Middleton interrompeu:
- Tenho estado em contato com eles, que consideram que tiveram uma grande
causa contra a companhia de navegao da qual sir Jarvis no s era o
presidente mas tambm o principal acionista.
- Ento, por que no abriram um processo contra ele? - interpelou o
duque.
- Eles iam fazer isso, quando descobriram que aquele navio em particular
era propriedade exclusiva de um dos diretores da companhia de navegao.
- A quem pertencia?
- Ao irmo de sir Jarvis, James Stamford!
O duque se endireitou na cadeira. Agora comeava a entender o segredo que
mantivera o pai de Giona no estrangeiro por tanto tempo.
- Foi emitido um mandato de captura contra James Stamford continuou o sr.
Middleton. - Mas descobriu-se que ele tinha viajado Para o estrangeiro um
ano antes e, embora esse mandato esteja em vigor, nunca pde ser posto em
prtica, pois James Stamford nunca mais voltou a este pas.
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- Ento foi assim que sir Jarvis se livrou dos problemas! - exclamou o
duque secamente.
- Mas ns fomos muito mais alm... Os detetives que contratei para esta
investigao - disse o sr. Middleton - descobriram um homem em Liverpool
que se aposentou da firma h muitos anos e conseguiram fazer com que ele
assinasse uma declarao, admitindo que tinha falsificado os documentos
do registro de propriedade no navio.
- O que no deve ter sido muito difcil - observou o duque.
- Era s alterar o nome de Jarvis para James.
- Foi exatamente o que ele disse ter feito - comentou o sr. Middleton com
um sorriso.
- Foi esperto! Muito esperto! - murmurou o duque.
- Os jornais da poca deram muita publicidade ao assunto continuou o sr.
Middleton. - O sr. William Wilberforce fez vrias perguntas no
Parlamento, e a Sociedade para a Abolio da Escravatura declarou-se
violentamente contra os proprietrios de navios que traziam os escravos
acorrentados, pois alm de tudo o mais, caso o navio estivesse em perigo,
as pobres criaturas no teriam possibilidade de se salvar. No entanto,
no se sabe por que, o assunto ficou por isso mesmo.
O duque via tudo claramente, percebendo como sir Jarvis fora
extraordinariamente astuto.
Seu irmo James, anteriormente, j decidira morar no estrangeiro por
algum tempo, at passar o falatrio e o escndalo sobre seu casamento.
Sir Jarvis props ento transform-lo num homem extremamente rico,
contando que o salvasse e o nome da famlia, permanecendo para sempre no
exlio. No seria muito penoso, uma vez que, estando to apaixonado pela
esposa, a nica coisa que desejava era estar junto da mulher que
conquistara seu corao.
Agora entendia o que Giona quisera dizer, ao contar que o pai as vezes
ficava nervoso e com saudades da ptria, dos amigos e dos esportes que
sempre praticara.
O que era imperdovel, acima de tudo o mais, era o fato de depois de ter
sido salvo da desgraa pelo irmo, sir Jarvis ter maltratado Giona to
cruelmente, com medo de que ela pudesse revelar seu segredo vergonhoso.
100
No havia dvida nenhuma de que aquele homem abominvel tinha que ser
castigado.
 - Creio que no haver dificuldades em provar tudo o que me acaba de
contar - disse o duque.
- Absolutamente nenhuma, Alteza - respondeu o sr. Middleton.
- Foi exatamente por querer que cada detalhe tivesse uma prova
irrefutvel e que as testemunhas fossem pessoas idneas, que pudessem ser
aceitas no tribunal, que esta investigao se estendeu por mais tempo do
que Vossa Alteza teria desejado.
- Estou-lhe imensamente agradecido, Middleton - disse o duque, com
evidente satisfao.
O sr. Middleton se levantou.
- Colocarei estes papis na escrivaninha de Vossa Alteza, para que possa
estud-los quando quiser. S temos uma coisa a lamentar.
O duque olhou seriamente para o secretrio.
- O que ?
- Receio - disse o sr. Middleton hesitante - que a esta altura sir Jarvis
j saiba que estamos investigando.
- Como  possvel? - perguntou Valerian.
- Os detetives foram instrudos para trabalharem no maior sigilo, mas o
comportamento de um dos funcionrios-chefe de uma das firmas, da qual sir
Jarvis ainda  presidente, e o desaparecimento deste funcionrio no dia
seguinte aos homens terem estado l, faz suspeitar de que ele veio para o
sul, a fim de alertar sir Jarvis a respeito do que estava acontecendo.
-  uma pena. Creio que agora j deve imaginar que estou por trs da
investigao que est sendo feita.
- No podemos descartar essa possibilidade, Alteza. O duque ficou em
silncio.
Estava pensando em Giona e nesse momento seu instinto lhe dizia que, se
sir Jarvis suspeitasse que ele era o responsvel pela investigao,
certamente suspeitaria tambm de seu envolvimento no desaparecimento de
Giona.
A sensao de perigo era to forte, to insistente, que s o impelia a
correr ao encontro de Giona, e avis-la de tudo o que fora descoberto.
Talvez fosse preciso tir-la dali e lev-la para outro lugar qualquer.
101
Levantou-se, dizendo:
- Obrigado, Middleton! Muito obrigado! Agora v tomar seu caf e comer
alguma coisa. Vejo voc mais tarde.
- Obrigado, Alteza.
O duque saiu da sala, hesitando entre ir a cavalo ou no faetonte at a
casa da duquesa.
Nesse momento, o mordomo se aproximou, dizendo:
- Os cavalos que Vossa Alteza mandou vir, acabaram de chegar. O duque se
lembrou ento de que dissera aos cavalarios, quando
acabara de montar, para que lhe levassem a parelha de baios que comprara
em Tattersall na semana anterior.
- vou lev-los no faetonte, para ver o desempenho deles - dissera aos
criados na ocasio.
Agora podia matar dois coelhos de uma s cajadada.
Riu-se de seus prprios temores, tentando se convencer de que a sensao
de perigo no tinha a menor razo de ser. Seria impossvel sir Jarvis
adivinhar onde Giona estava escondida.
Apesar disso, era conveniente no se arriscar.
- vou para casa de minha av - informou Valerian ao mordomo. Quando ia
para a porta, Hibbert apareceu nas escadas com um par
de luvas limpas, para substituir as que o duque usara para montar a
cavalo.
No saberia explicar o porqu, mas novamente o instinto lhe avisava para
que levasse Hibbert consigo. Sem se preocupar em dar explicaes, disse:
- Venha comigo, Hibbert. Preciso de voc!
Felizmente no era Ben quem estava na carruagem, caso contrrio ficaria
ofendido em ser trocado pelo criado particular do duque.
Valerian ocupou o lugar do condutor e pegou as rdeas. Hibbert ia subindo
para o lugar de trs, mas o duque pediu-lhe que sentasse ao seu lado.
Os cavalos que tinham sido vendidos como sendo bem treinados, estavam
inquietos. O duque, porm, os controlou rapidamente e seguiram pelo
ptio, tomando um atalho que era o caminho mais rpido at a casa da
duquesa.
102
Hibbert no disse nada, mas o duque sabia que estava cheio de curiosidade
e pressentia que alguma coisa incomum estava acontecendo.
Valerian, porm, no deu explicaes, limitando-se a dizer:
- Tenho o pressentimento de que posso precisar de voc, Hibbert, por isso
fique alerta.
- Contra o qu ou quem, Alteza?
- Para ser honesto, no fao a menor ideia - respondeu o duque.
- Mas  possvel que tenhamos problemas.
- Espero que seja verdade, Alteza - disse Hibbert, fazendo um trejeito
com a boca. - Um homem amolece durante o tempo de paz.
O duque sorriu.
Era o que achava tambm, mas no se deu ao trabalho de fazer qualquer
comentrio, concentrando-se apenas nos cavalos.
Giona no conseguira dormir bem, pois tivera a impresso, pela maneira
como Valerian lhe dissera boa-noite, que algo o havia aborrecido.
No fazia ideia do que poderia ter sido, mas a voz dele soara rspida, o
olhar estava gelado e ela teve a sensao de que o duque se fechara numa
concha, pondo-se fora do alcance de todos.
- O que ser que o aborreceu? O que poderei eu ter feito? perguntava a si
mesma.
Embora mentalmente passasse em revista tudo o que tinha sido falado
durante a noite anterior, no conseguiu achar qualquer razo para a
mudana que se operara na atitude de seu protetor, entre o jantar e a
hora da despedida.
Se Lucien no estivesse presente, teria tido coragem para perguntar a
Valerian o que havia de errado.
Mas realmente no houvera essa oportunidade, pois logo aps o duque ter
se reunido a eles no jardim, tinham voltado para casa e ele se despedira
da av.
- Vamos ver voc amanh? - perguntara a duquesa.
- No fao ideia - respondera Valerian, num tom frio que fez com que
Giona olhasse para ele, confusa.
103
- Bem, Giona e eu ficaremos ansiosas esperando por uma nova visita -
respondeu a duquesa. - Estava esperando que viessem almoar conosco.
- vou pensar.
O duque dera um beijo na av e encaminhara-se para a porta.
Nada dissera a Giona, e ela o acompanhara at a entrada, observando-o
enquanto pegava a capa que um dos criados lhe entregava, colocondo-a no
brao.
Giona lembrava-se do dia em que ele lhe emprestara esta mesma capa, a fim
de que entrasse na estalagem, fingindo ser sua irm. Se ele no estivesse
to mal-humorado naquele momento, a jovem teria tocado no assunto e
teriam ambos dado boas risadas.
Sem dizer uma palavra, porm, Valerian fora saindo, e Giona dissera
timidamente:
- Boa-noite... Alteza.
Ele no virara a cabea, nem olhara para ela, limitando-se a responder
com um rpido e quase ininteligvel cumprimento.
- Boa-noite e obrigado! - disse Lucien.
Giona tivera a impresso de que o jovem ia dizer mais alguma coisa, mas
como seu tutor esperava por ele, no parou mais, entrando na carruagem.
Depois que partiram, Giona ficara olhando at que desaparecessem da
vista, sentindo que aquela carruagem levava tambm seu corao.
Muito mais tarde, na escurido de seu quarto, admitiu que estava
apaixonada pelo duque.
- Eu o amo! Eu o amo! - sussurrava, com o rosto enfiado no travesseiro. -
Ele me salvou... me trouxe esperana e me deu uma nova vida. Como posso
esperar... mais ainda? - dizia para si mesma.
Mas a verdade  que queria muito mais. Queria-o como homem, queria que
Valerian a admirasse, que a aprovasse e, acima de tudo, que a amasse!
Perguntou a si mesma como pretendia ser to presunosa e absurda, mas a
resposta era evidente.
Ningum pode controlar o amor e apenas seu desconhecimento sobre o
assunto no permitiria que percebesse, logo ao primeiro olhar, que seu
corao j no lhe pertencia mais.
104
- Eu... o amo! Eu... o amo! - repetia, infinitas vezes. Giona se agitara
na cama, at que as estrelas desaparecessem e a
primeira claridade da madrugada surgisse no cu. S ento adormecera, com
a palavra "amor" ainda em seus lbios.
Giona acordou cedo e se vestiu muito antes da hora permitida para que
entrasse nos aposentos da duquesa.
Como fora uma mulher muito bonita, a duquesa no admitia que ningum a
visse antes de se maquilar e de ser cuidadosamente penteada por sua aia.
S ento, com as janelas abertas, o quarto cheirando a flores e
elegantemente recostada nos travesseiros,  que estaria pronta a receber
alguma pessoa da casa que precisasse falar com ela.
- Que dia -lindo! - exclamou a duquesa, assim que Giona se aproximou da
cama. - Espero que, quando meu neto chegar, ele leve voc para dar um
passeio de carruagem.
- Eu adoraria! - afirmou Giona. - Mas talvez ele tenha coisas mais
importantes para fazer.
- Duvido - disse a duquesa. - Mas tenho pena de no ter lhe feito essa
sugesto ontem  tarde. Voc est sempre enfiada aqui dentro. H tempo de
sobra e no h risco em dar uma volta pela propriedade, onde ningum a
deve ver.
Giona suspirou.
- H tanta coisa que eu gostaria de conversar com Sua Alteza. Falou de
modo to triste, que a duquesa se apressou a dizer:
- Certamente ele vir para almoar. Diga a Agnes que quero me levantar,
para estar pronta quando Valerian chegar.
A duquesa percebeu a velocidade com que Giona saiu do quarto para
procurar a aia e pressentiu que aquela moa estava apaixonada por seu
neto.
Era algo que no queria que acontecesse. Conhecia bem a posio do duque
em relao ao amor e tinha conhecimento do que se passava s mulheres que
andavam atrs dele.
Na noite anterior, porm, mudara de ideia. Tivera muitos romances na
vida, para no conhecer os sinais evidente de cime num homem.
105
O duque tinha ido para o jardim e voltara com o cenho franzido. Depois
disso, comportara-se de uma maneira que deixava bem claro que estava
tentando se controlar e que os seus sentimentos em relao a Giona
estavam longe de ser apenas compaixo.
Qualquer outra garota da idade de Giona seria jovem demais para um homem
experiente e sofisticado de vinte e nove anos, mas ao longo das semanas
que passara com a moa, a duquesa percebera como ela era inteligente e
sensata.
Alm disso, a jovem viajara pelo mundo inteiro, o que lhe dava uma viso
ampla da vida, muito diferente das moas que s conheciam o banco da
escola, antes de entrarem na sociedade.
"Giona no pensa nela prpria", pensou a duquesa, "mas nas naes, nos
povos, na poltica e na religio e esses assuntos mantm um homem muito
mais interessado do que um rosto bonito".
Mesmo assim, a duquesa estava apreensiva.
Ningum melhor do que ela sabia como o neto era imprevisvel. E quem
poderia ter a certeza de que o que o duque sentia era amor e no apenas
aborrecimento?
Tomara Giona a seu encargo, mas o aparente interesse dela por um homem
mais novo e muito atraente podia fazer com que Valerian mudasse de ideia
de um momento para outro.
Pensando melhor, a duquesa achou melhor dar tempo ao tempo e observar os
fatos.
- vou ter que esperar para ver o que acontece - disse suspirando -,
enquanto sua aia entrava no quarto para ajud-la a se vestir.
Sabendo que o duque, se viesse, no apareceria to cedo, Giona desceu
para o salo, sem saber bem o que fazer para ocupar o tempo.
O que queria mesmo era ficar esperando para ver se o faetonte se
aproximava, to ansiosa estava para rever Valerian.
- Por favor, meu Deus, faa com que ele venha logo! - rezou.
Era uma prece banal, mas vinha do fundo de seu corao e com uma
intensidade to grande que mal conseguia controlar.
- Venha... logo! Chegue... depressa, querido!
Ao descer as escadas, tinha a impresso de que aquelas palavras se
repetiam a cada degrau e que voavam at ele!
106
De repente, ouviu um barulho de rodas e, com um aperto no corao, julgou
que sua prece fora ouvida e que o duque chegara.
Viu Simpsom ir lentamente at  porta, arrastando suas pernas cheias de
reumatismo e ouviu uma voz masculina dizer:
- Diga a miss Stamford que estou esperando para falar com ela.
- Miss'Stamford! - exclamou Simpson, surpreendido. - Aqui no h ningum
com esse nome.
- H sim.  a moa que est hospedada aqui - disse o homem.
- Miss Andreas?  a ela que est se referindo? - perguntou Simpson.
- Ela mesma. Diga-lhe que venha at aqui.
Giona, ao ouvir perguntar por seu nome, ficou gelada, e agarrou-se ao
corrimo da escada.
com um aperto no corao, sentiu que alguma coisa estava errada. A nica
pessoa que iria cham-la por seu verdadeiro nome era o tio.
Despesperada, quis se esconder, mas quando ia se virar para subir as
escadas correndo, Simpson a viu e o homem com quem estava falando tambm.
- Ali est ela! - exclamou o homem, num tom que pareceu ecoar pela casa
toda.
Antes que Giona pudesse dar um passo, ele j entrara correndo, subira
escada acima e a agarrara.
Ela gritou aterrorizada e sequer teve tempo de protestar ou perceber o
que estava acontecendo, pois, rapidamente, o homem j a havia empurrado
para dentro do faetonte.
Giona deu outro grito de pavor ao ver quem estava conduzindo os cavalos,
mas a voz morreu em sua garganta.
- Amarre-a bem, Jake! - ordenou sir Jarvis, num tom gelado e o homem
passou prontamente uma correia em torno dos braos e da cintura de Giona,
imobilizando-a.
Em seguida, o homem ocupou o lugar atrs de sir Jarvis, que chicoteou os
cavalos, partindo em disparada.
- O que... est... fazendo? Para... onde est... me levando?
- Tentou dizer Giona, sem conseguir pronunciar as palavras com clareza.
107
O tio desviou os olhos dos cavalos e olhou para ela, com a expresso mais
aterradora e diablica que ela jamais vira.
- Estou levando voc de volta ao lugar onde merece ficar. Esteja certa de
que me certificarei de que nunca mais fugir e de que vai se arrepender a
vida toda por ter feito o que fez!
- N... no tem... o direito... de fazer... isso... comigo tentou dizer
Giona.
- Tenho todo o direito - retorquiu sir Jarvis. - Sou seu tutor e voc vai
parar com essa conversa sobre direitos, quando eu lhe der o tratamento
que merece!
Falou com tanta maldade que Giona sentiu que a vida se esvaa de dentro
de si e que estava novamente s portas da morte.
Gostaria de saber como seu tio a teria descoberto e o que o duque faria
quando soubesse do ocorrido.
Sir Jarvis no estava brincando ao dizer que ela se arrependeria
amargamente do que fizera e que nunca mais tentaria fugir. Sabia muito
bem o que lhe ia acontecer quando ele pusesse em prtica aquela ameaa,
to logo chegassem a Stamford Towers.
Como se tivesse havido uma transmisso de pensamento entre eles, o tio
disse:
- Tal como est amarrada ao faetonte, no futuro ficar acorrentada, presa
 parede de seu quarto. Ser tratada como prisioneira, Giona, e receber
o mesmo castigo de qualquer criminoso, que  o que voc !
Giona fechou os olhos.
Parecia sentir por antecipao as chicotadas que certamente iria receber
e s esperava que, se o tio a quisesse matar, o fizesse rapidamente.
Subitamente, para sua surpresa, sir Jarvis diminuiu a velocidade dos
cavalos.
Abriu os olhos vendo que estavam numa passagem estreita, onde os ramos
das rvores quase fechavam o caminho, formando uma espcie de tnel.
Teria achado tudo lindo, com raios de sol filtrando-se por entre os
galhos, se no fosse a situao aterradora em que se encontrava.
-  mesmo este o lugar, Jake? - indagou sir Jarvis.
108
Nesse momento, outro homem apareceu por entre as rvores, do lado da
estrada. Era forte e entroncado.
Tinha qualquer coisa que fez com que Giona desconfiasse que era um
lutador de boxe, o qUe era verdade. O homem que ia ao lado do tio saltou
do faetonte, juntando-se ao outro.
Giona olhou para os dois aterrorizada, percebendo que a sua suposio
estava correta.
Ambos eram pugilistas e como nenhum deles estava usando casaco, podia ver
a musculatura de seus corpos atlticos sobressaindo sob a camisa de
algodo que vestiam.
- Ajudem-me com os cavalos - ordenou sir Jarvis, secamente.
O homem chamado Jake fez o que ele mandara, colocando os animais numa
posio que bloqueava a passagem completamente.
Os cavalos comearam a pastar nas ervas e, surpreendentemente, sir Jarvis
no se incomodou com isso.
Enfiou a mo no bolso do casaco, como se estivesse certificando de alguma
coisa. Giona estava apavorada demais para lhe prestar ateno. com um
aperto no peito, porm, percebeu que ele usava o casaco num dia to
quente, para esconder a pistola que tencionava usar.
Mudou as rdeas de mo e tirou mais uma pistola do outro bolso.
Destravou-a e voltou a guard-la no bolso.
- O que... est fazendo? Por quem est... esperando? - perguntou Giona.
Achou que ele no ia responder, mas, para sua surpresa, o maldoso tio
disse:
- Pensei que gostaria, minha querida sobrinha, de me ver destruir o homem
que, sem dvida nenhuma, instigado por voc, se meteu onde no era
chamado, e agora ameaa minha segurana.
Giona engoliu em seco e ele continuou:
- Como  evidente, no posso permitir uma coisa dessas. Alm disso, como
voc interferiu decisivamente nessa estria, vai ter o prazer de v-lo
morrer!
- De... de quem  que... est falando? O que...  que est... dizendo? -
perguntou Giona, aflita.
109
- Voc sabe muito bem - disse sir Jarvis. - Ser verdadeiramente
lamentvel que o mais nobre dos duques, um homem to atraente, tenha sido
atacado por salteadores de estrada e morrido exatamente em sua
propriedade.
Giona deu um grito de terror ao ouvir aquelas palavras.
- Como... pode... planejar... semelhante coisa? Como pode... tentar matar
algum... principalmente o duque?
- Sei que, se ele morrer, voc ficar desesperada. Foi por isso, sua
bastarda idiota, que a trouxe at aqui para assistir  morte dele!
- Como... pode... fazer isso? E... no era verdade! Papai e mame eram
casados! Eu vi... a certido de casamento!
Giona atirou-lhe as palavras  cara e sir Jarvis voltou a olhar para ela
com tanto dio que a jovem se encolheu o mais que pde, tentando manter-
se afastada dele o mais possvel.
- Quer dizer que esse bisbilhoteiro do duque descobriu o registro? Mais
uma razo para eu acabar com ele, da mesma forma como pretendo acabar com
voc depois!
- O senhor est louco! - murmurou Giona. - Mas j que tenho que morrer
no o mate! Ele... estava apenas... sendo gentil... e tentando me ajudar.
- Muito gentil e prestimoso! - disse sir Jarvis com sarcasmo.
- Para no dizer o quanto est ansioso por me fazer sentar no banco dos
rus, o que decididamente no vou permitir que acontea.
- Fale... com ele... pea-lhe... para no fazer... nada implorou Giona. -
Mas... por favor... no o mate.
- Est to devotada assim a esse homem? Agora percebo que agi muito bem e
imagino o quanto ficar perturbada ao ver o fim dele. Mas deixe-me avis-
la de que, se quando ele aparecer, voc gritar ou fizer qualquer coisa
para alert-lo, eu me encarregarei de faz-la calar com esta pistola!
- Por favor... por favor - Giona ia comear a implorar, no por ela, mas
pelo duque, quando Jake, olhando para a estrada, exclamou:
- Acho que ele est vindo, Guv!
- Faam exatamente o que lhes disse - ordenou sir Jarvis. Giona viu o
outro homem tirar uma pistola e engoliu em seco,
apavorada.
110
Agora se ouvia distintamente o trotar dos cavalos,  distncia, at que
despontando numa curva, apareceu o faetonte do duque.
No havia dvida de que era ele quem os vinha conduzindo. -Aquele chapu
e a postura dos ombros eram inigualveis.
O duque devia ter pressentido a presena de seus atacantes no mesmo
momento, porque reduziu o andar dos cavalos. Quando se aproximaram mais,
Giona viu que Hibbert o acompanhava.
O que ela poderia fazer? Sabia que o tio no estava brincando, quando
ameaou mat-la. Isso, entretanto, seria irrelevante se conseguisse
salvar a vida do duque. E o pior era que, andando dentro de sua
propriedade, no era provvel que o duque estivesse armado.
- O... que  que eu fao? O que  que... eu fao? - Giona repetia
desesperadamente para si prpria, vendo, apavorada, que o duque se
aproximava cada vez mais.
Finalmente, Valerian parou os cavalos e avistou sir larvis e Giona.
- Bom-dia, Alteza! - cumprimentou sir Jarvis, sarcasticamente.
- Creio que est esperando para falar comigo - retorquiu o duque. -
Devemos gritar um para o outro, ou descer da carruagem e conversar como
pessoas civilizadas?
- Como o senhor tem algum que pode segurar as rdeas - respondeu sir
Jarvis -, e ele no deseja confiar  minha sobrinha estes animais, sugiro
que venha at aqui.
Enquanto o tio falava, Giona viu que -Jake se escondera e, apesar de
querer gritar para que o duque no descesse, no conseguia perceber o que
ganharia com isso.
Valerian passou as rdeas para Hibbert e, assim que saltou do faetonte, o
segundo pugilista apareceu por detrs das rvores, apontando a pistola
para o criado particular do duque.
Como um raio, mal dando tempo a Giona para respirar, Jake correu para o
duque, atacando-o.
Mesmo apanhado de surpresa, o duque conseguiu se desviar do golpe que
certamente o teria derrubado, ao mesmo tempo que seu chapu caa ao cho.
Os dois homens comearam uma verdadeira luta de profissionais.
Giona estava apavorada, temendo que Jake pudesse acertar o duque. Ela
sabia que ele era muito forte, pois quando a pegara na escada e a levara
para o faetonte, parecia estar carregando uma pluma.
111
Observava toda a fora da musculatura dele, ao lutar contra o duque, e
para sua surpresa, os golpes pareciam no atingir
Valerian, passados os primeiros instantes de surpresa, comeou a lutar
eximiamente, como aprendera na academia de boxe Gentleman Jackson. Apesar
da desvantagem de estar trajando casaco, estava lutando pela sua vida.
Por outro lado, como era mais leve e esbelto e, sem dvida nenhuma,
possua uma agilidade maior do que Jake, conseguia acertar o homem muito
mais vezes.
Subitamente, sem que Giona tivesse tempo de perceber o que acontecera, o
duque acertou o queixo de Jake com fora violenta. A cabea do homem foi
jogada para trs e, como ele se desequilibrasse, o duque o acertou
novamente, fazendo-o cair completamente vencido.
Nesse momento, o segundo pugilista, que mantinha Hibbert sob controle com
a pistola, virou a cabea para ver o que estava acontecendo. Era a
oportunidade que Hibbert esperava.
Desceu a mo, dura como uma barra de ferro, no pescoo do homem. Podia
no ser uma pancada muito ortodoxa, mas era um golpe mortal que aprendera
com os chineses.
O homem caiu como um saco de batatas, mas Giona s tinha olhos para o
duque.
Havia um sorriso de satisfao no rosto dele por ter derrubado o
adversrio, mas nesse instante a jovem percebeu que seu tio j sacava a
pistola do bolso direito do casaco.
- Bela luta, Alteza! - sir Jarvis escarneceu. - Mas infelizmente o
segundo round ainda vai comear!
No momento em que abaixava a pistola, apontando para sua vtima
desprotegida, Giona enfiou a mo no bolso esquerdo do tio, puxando de l
a outra pistola.
Sem querer parar para pensar, apontou para o corao de sir Jarvis e
apertou o gatilho.
com um estrondo, a pistola pulou em sua mo e o homem, depois de um
segundo de imobilizao, dobrou-se para a frente, caindo do faetonte, em
seguida.
Na queda, seu dedo disparou a pistola automaticamente e o segundo tiro
assustou os cavalos do duque, que impinaram.
Hibbert tentou desesperadamente controlar os animais, mas eles
112
estavam to apavorados que acabaram por assustar tambm os de sir Jarvis,
que at ento pastavam tranquilamente.
Houve uma confuso total de cavalos e rodas, antes que o duque
conseguisse tomar o lugar de sir Jarvis e pegasse nas rdeas, tentando
segurar os animais.
Os cavalos atiravam-se uns sobre os outros e s quando conseguiram
separar as duas parelhas e sosseg-las  que Giona deu um grito,
estendendo as mos para o duque.
- Est tudo bem - disse ele, abraando-a.
- Eu... eu... o matei! - murmurou. - Eu... o matei... da mesma maneira...
que ele tencionava matar... voc!
Ao pux-la para si, o duque viu que estava amarrada ao lugar. Desatou a
correia, sem dizer nada, antes de perguntar suavemente:
- Voc est bem?
Giona encostou a cabea no ombro dele e, fazendo um esforo, conseguiu
dizer:
- Eu... estou bem.
- Procure ficar calma - disse o duque. - Temos ainda muitas coisas para
resolver! - disse o duque, saltando do faetonte e dizendo para Hibbert:
- O que vamos fazer com esta turma?
Hibbert fez uma careta. Seus olhos estavam brilhando.
- Eles no faro nada, Alteza - disse, olhando para o cho. S nessa
altura  que o duque percebeu que, na confuso que se
estabelecera depois dos tiros, as rodas do faetonte tinham passado por
cima no s de sir Jarvis, que j devia estar morto com o tiro de Giona,
como tambm haviam atropelado Jake.
O duque ficou olhando para os corpos, durante alguns momentos e disse:
- Os nicos responsveis por isso tudo foram os salteadores.
- Era exatamente o que eu estava pensando, Alteza.
Valerian olhou para o homem que ameaara Hibbert e que estava no cho,
cado, ainda com a pistola na mo.
Pegou na arma que cara da mo de sir Jarvis e colocou-a na mo de Jake.
Hibbert, percebendo o que o patro esperava dele, amarrou as rdeas e
desceu. Tinham estado tanto tempo juntos na guerra, que sabia que o duque
no iria gostar de preparar a encenao necessria
113
para dar um ar coerente quela situao, quando fossem achados os corpos.
 duque ficou controlando os animais, enquanto Hibbert esvaziava os
bolsos do cadver, tirando-lhe tambm o relgio, um anel de sinete e a
prola do alfinete da gravata.
Depois olhou para o duque, esperando novas ordens.
- Esconda tudo numa toca de coelho no bosque.
Hibbert desapareceu entre as rvores, enquanto Giona observava Valer ian.
Parecia um milagre ele ter sobrevivido e, apesar de achar que devia estar
se sentindo culpada por ter liquidado um homem, a nica coisa que
conseguia fazer era agradecer a Deus, do fundo de seu corao, por ter
poupado a vida de seu querido Valerian.
- Obrigada... Senhor! Obrigada... Senhor! - murmurava, feliz, como se
aquelas palavras fossem msica vinda dos pssaros que estavam nas
rvores.
Quando Hibbert voltou, o duque j estava se preparando para partir dali.
- Quanto mais rpido sairmos deste local, melhor! Pode aparecer algum de
repente.
- Concordo, Alteza.
- Ento no percamos mais tempo.
O duque largou o brido do cavalo de sir Jarvis e foi at o faetonte,
estendendo os braos para Giona.
A jovem estava to assustada, que mal podia se mover. Porm, antecipando
a felicidade que sentiria em estar junto dele, desceu, deixando que o
duque a carregasse at o outro faetonte.
Acomodou-a cuidadosamente ao lado dele e logo que Hibbert subiu, partiram
rapidamente, deixando para trs os trs cadveres estendidos no cho.
Andaram um pouco e o duque entrou numa estradinha particular, dirigindo-
se  casa de sua av.
Somente nesse momento, falou pela primeira vez. Giona, a seu lado, estava
exausta e incapaz de pensar em mais nada, a no ser que ele estava salvo
e que no teria mais razo para temores.
- Voc est bem? - perguntou o duque, novamente.
- Voc... est salvo!  o que importa!
- Graas a Deus - respondeu ele, imediatamente. - Mas falaremos
114
no assunto mas tarde. Agora  muito importante que voc faa
exatamente o que vou lhe dizer.
Giona olhou para Valerian com os olhos abertos.
- Ningum pode ficar sabendo que voc ou eu estivemos presentes no
desenrolar deste lastimvel e dramtico acidente que acaba de acontecer.
Fazendo os cavalos andarem mais devagar, continuou:
- Daqui a pouco tempo seremos informados de que salteadores, e na
vizinhana os h de todos os tipos, apanharam um cavalheiro que vinha em
visita a Alverstode House, roubaram-no e depois mataram-no.
Fez uma pausa e continuou devagar:
- Parecer um crime um pouco confuso porque, obviamente, algum dever
ter fugido com o fruto do roubo, depois de brigar com os comparsas.
Giona respirou fundo.
- Tio... Jarvis - disse com a voz trmula - queria que pensassem que voc
tinha sido morto... por salteadores de estrada.
- Mas estou bem vivo, Giona. Entende agora por que voc no pode deixar
que percebam, de forma alguma, que voc tem conhecimento do que
aconteceu?
Ela concordou com a cabea.
- Voc  suficientemente inteligente para desempenhar um papel que no
vai ser fcil, mas que nos livrar de uma montanha de perguntas
incmodas.
- Tentarei fazer o melhor que puder.
- E conseguir, estou certo - disse o duque sorrindo. - Agora v a p
daqui para casa e diga que seu tio a levou bem perto, porque queria
conversar com voc em particular.
- Aquele homem... que voc derrotou... ele me agarrou nas escadas... e me
carregou... para o faetonte.
- Quem viu o que aconteceu? - perguntou imediatamente o duque.
- S Simpson.
- Diga-lhe que era uma brincadeira, o tipo de coisa que seu tio achava
engraado fazer. Tente ser convincente.
Pegou na mo dela e beijou-a.
- Verei voc mais tarde. Lembre-se de que tudo depende de seu
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sangue frio, e da sua forma de se comportar como se nada de anormal
tivesse acontecido.
Parou os cavalos e Giona viu que os portes da manso da duquesa estavam
bem prximos.
- Voc... est salvo - disse baixinho, como que para assegurar-se da
verdade.
- E voc tambm! - respondeu o duque, gentilmente.
Seus olhares se encontraram e, por um momento, se perderam no mundo
longnquo dos amantes.
Giona desceu do faetonte e seguiu para casa, ouvindo aquela frase, sem
parar,  medida que caminhava:
- Ele est... salvo! Ele... est salvo!
116

CAPTULO VII

- Acho que vou at l em cima descansar - disse a duquesa, enquanto saa
da sala de jantar acompanhada por Giona.
- Faz bem... madame - disse a jovem.
A voz hesitante da moa fez com que a duquesa olhasse para ela,
atentamente.
- Tambm seria bom que voc descansasse um pouco - recomendou a mulher. -
Est to plida como nos primeiros dias em que chegou aqui.
- Deve... ser... o calor - argumentou rapidamente Giona. Irei at o
jardim... tomar um pouco de ar fresco.
- Faa isso - aprovou a duquesa. - Talvez meu neto aparea para o ch e
nos explique por que demorou tanto.
Giona ficou em silncio e, assim que a velha mulher subiu lentamente as
escadas, foi para o terrao.
Tinha levado seu autocontrole at o limite mximo, desempenhando o papel
que o duque lhe destinara.
Assim que voltara para casa, Simpson tinha aparecido correndo  entrada,
muito agitado.
- O que lhe aconteceu, miss Giona? - Por que foi carregada para fora
daquela maneira to estranha? Fiquei muito preocupado.
Fazendo um esforo sobre-humano para aquele momento, Giona conseguiu
sorrir.
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- Foi apenas uma brincadeira de meu tio. Ele queria me pregar um susto e
conseguiu. Andamos um pouco, depois disse que eu podia voltar.  o tipo
da brincadeira que ele aprecia fazer.
O ar de preocupao desapareceu do rosto de Simpson.
- Ah, ento foi isso! - exclamou. - Estava com medo que algo desagradvel
lhe pudesse acontecer e cheguei mesmo a pensar em mandar um criado  sua
procura!
- Est tudo bem, s fiquei com a saia um pouco suja - respondeu Giona. -
vou trocar de roupa agora.
Foi para o quarto que a arrumadeira j tinha posto em ordem. Ali poderia
finalmente ficar sozinha, tentando se acalmar.
Sentou-se numa poltrona, sentindo o quarto girar  sua volta, enquanto
uma escurido invadia seus olhos.
Sabendo que Valerian confiava nela, fez um esforo para no desmaiar.
Tinha que desempenhar bem o papel que ele lhe confiara e ningum podia
sequer suspeitar do que acontecera.
 medida que a manh avanava, Giona censurava-se mais e mais. Matara um
homem e, no entanto, s conseguia pensar que aquela fora a nica forma de
salvar seu amado duque.
Mas estaria ele livre do escndalo e de todo o falatrio que
inevitavelmente o atingiriam se, por azar, algum ficasse sabendo o que,
de fato, ocorrera?
O que pensariam, o que diriam e o que os jornais escreveriam sobre o
assunto? Todas essas perguntas giravam sem parar na mente de Giona. A
nica coisa que a impedia de enlouquecer era a perspectiva de ver
Valerian.
Comeou a contar as horas que faltavam para que ele, possivelmente,
aparecesse.
Calculava quanto tempo levaria at que algum descobrisse os homens
mortos na estrada.
Apesar de todos os seus temores, Giona tinha o pressentimento de que o
duque conseguiria se livrar dos problemas e de qualquer especulao que
pudesse haver em torno do assunto. Pressentia tambm que seu amado iria
aparecer para o almoo.
Finalmente, ouviu o trotar de um cavalo. Mas era apenas um mensageiro,
trazendo um bilhete para a duquesa.
Nessa altura j estavam no andar de baixo. A duquesa leu a nota e
entregou-a a Giona.
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Por uns momentos, a caligrafia firme e forte do duque pareceu danar
diante dos olhos da jovem. Depois ela leu:
"Desculpe-me vov, por no ir almoar com a senhora como
gostaria, mas um problema aborrecido me prendeu aqui. Contudo,
espero poder vir visit-la durante tarde.
Seu neto que a estima e a respeita
Valerian"
- Um problema aborrecido - repetiu Giona baixinho, rezando para que ele
no estivesse menosprezando algo que poderia tornar-se muito srio.
Depois, passeando entre as roseiras enquanto pensava no duque, lembrou-se
de uma coisa que a fez sentir como se tivesse levado um golpe na cabea.
Se, por acaso, tudo corresse bem com o caso da morte de sir Jarvis, no
s o duque estaria salvo como ela tambm e, nesse caso, no precisaria
mais da proteo dele!
Estivera to aterrorizada com o tio e com a ameaa que ele representava,
que s agora ia, aos poucos, tomando conscincia de que uma vez que sir
Jarvis estava morto, ela era uma pessoa livre e podia ir para onde bem
desejasse.
Se tudo tivesse acontecido durante sua permanncia em Stamford Towers,
ter-se-ia sentido como um pssaro engaiolado que, de repente, fosse
colocado em liberdade para voar. Mas, agora, isso poderia significar o
distanciamento de seu adorado Valerian.
Ele cuidara dela, ajudara-a a fugir, levando-a para aquele lugar em
segurana, apenas porque sentia pena dela! Afinal, ele era contrrio a
qualquer tipo de violncia.
Como mulher, no significava nada para ele. Somente o senso de justia e
compaixo o tinham impelido a salv-la da degradao e da morte.
Agora no iria mais se preocupar com ela!
Ao invs de sentir-se feliz com o futuro que a esperava, s via tristeza
e solido  sua frente!
Teria dinheiro, porque o duque trataria de restituir o que seu pai lhe
deixara. Depois, ele voltaria para os amigos, para seus esportes,
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para as responsabilidades inerentes  sua posio na sociedade, enquanto
que ela ficaria apenas com o corao dilacerado.
"Eu o amo!", pensou. "Mas o que significa para ele o meu amor, quando
qualquer uma das magnficas mulheres que rodeiam o prncipe regente podem
pertencer a Valerian, se ele assim o quiser? "
A duquesa falara-lhe sobre o sucesso do neto com as mulheres. Ela gostava
de falar sobre os escndalos da alta sociedade e, sem querer, machucara
Giona, pensando estar apenas engrandecendo o neto.
Seus comentrios sobre as notcias que apareciam nas colunas sociais do
Times e do Morning Post eram verdadeiras facadas no corao de Giona.
- Estou vendo que lady Mary Crewson esteve de servio no palcio de
Buckingham esta semana - comentara a duquesa na vspera.
- Sempre achei que ela era muito aborrecida, mas, pelo menos,  muito
bonita. Acho que entendo o que Valerian viu nela, embora no tenha ficado
interessado por muito tempo.
As notcias de noivados sempre traziam alguma revelao tambm.
- Ento, a filha do duque de Northumberland ficou noiva, finalmente! -
exclamou a duquesa, numa certa manh. - Pensei que continuasse chorando
por Valerian. Teria sido uma esposa apropriada, mas ele nunca se
interessou por ela.
Mulheres e mais mulheres! Todas deviam ser lindas como um raio de sol,
pensava Giona.
Sem -se dar conta do que estava fazendo, a jovem deu por si no
caramancho onde sentou-se, tentando arranjar foras para enfrentar o que
Valerian lhe diria assim que chegasse.
No conseguia entender por que ele demorava tanto.
Talvez o delegado suspeitasse de que a estria da briga com os
assaltantes no fosse verdadeira. Se ele levantasse a suspeita de que o
duque teria matado seu tio, ela seria forada a contar o que de fato
ocorrera.
Era certo que o duque iria tentar proteg-la, mas ela no poderia
permitir semelhante coisa.
Perante um inqurito, aquela srdida estria viria  tona. Toda a
crueldade do tio em relao a ela se tornaria do conhecimento pblico e
Giona nunca mais poderia andar de cabea erguida.
Por outro lado, se tudo acontecesse como o duque planejara, provavelmente
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ele lhe diria adeus, permitindo apenas que ficasse mais algum
tempo em companhia da duquesa, sua av.
Talvez pudesse alugar uma casa em Londres e pagar a alguma senhora
respeitvel ou a alguma viva para lhe fazer companhia. Ou talvez fosse
melhor deixar a Inglaterra, e sair a viajar, para qualquer parte do mundo
onde no houvesse guerra.
Ficaria s, completamente s, sabendo que nunca mais se interessaria por
homem nenhum. Entregara seu amor ao duque e no seria capaz de amar
novamente.
Sentia vontade de chorar, mas, pensando que Valerian a desprezaria se a
encontrasse em prantos, esforou-se para manter o autocontrole.
Estava to aflita que tudo lhe parecia assustador e problemtico. Sua
cabea estourava com tantas dvidas ao mesmo tempo.
De repente, olhou para cima e teve vontade de gritar, ao ver Valerian 
sua frente.
Chegara sem que ela se desse conta e estava ali, em p. Giona chegou a
pensar que aquela viso era fruto de sua imaginao perturbada.
Seu corao pareceu parar de bater, quando se levantou, correndo para
junto dele.
- O... que... aconteceu? Por que... demorou... tanto? Alguma... coisa...
saiu errada?
As perguntas saiam incoerentes de seus lbios e ela no conseguia se
controlar.
Sem pensar, Giona agarrou-se a ele, como se aquele homem pudesse fugir de
repente, deixando-a sem respostas.
- Est tudo bem - respondeu o duque, tranquilizando-a. - Lamento ter
demorado tanto a vir ter com voc, mas no tive outra alternativa.
O tom tranquilo da voz de Valerian fez com que Giona olhasse para ele,
tentando ver se falava verdade. Seus olhos estavam to abertos que
pareciam encher todo o rosto.
- Eles... acreditaram? Aceitaram... a estria de que... foram os
salteadores que... mataram tio Jarvis?
Estava trmula e o duque passou o brao  volta de seus ombros, tentando
acalmar seus nervos em frangalhos.
- O delegado j est procurando o assassino, apesar de saber que, sem
pistas sobre a aparncia dele, as probabilidades de captura so mnimas -
disse, com um sorriso nos lbios. - No precisa se preocupar
121
 mais. Voc salvou minha vida, Giona - acrescentou, suavemente.
Sentiu que ela tremia, como se a lembrana da tentativa de assassinato
contra ele ainda estivesse bem viva em sua mente.
- Esquea e deixe-me agradecer, porque estou realmente muito grato a
voc, por podermos estar agora aqui, juntos.
A maneira calma de ele falar, fez com que ela o fitasse, intrigada, j
com um expresso mais tranquila.
Valerian estreitou-a docemente, dizendo:
- Enquanto vinha para c, estive imaginando uma maneira de lhe expressar
a felicidade que sinto em estar vivo e acho que encontrei a forma que me
dar maior prazer.
Enquanto falava, foi aproximando seus lbios dos de Giona.
Por um momento, a jovem mal pde acreditar no que lhe estava acontecendo,
mas quando sentiu o calor dos lbios de Valerian, viu seus sonhos se
realizarem.
Aquela era a nica maneira de expressar o amor que a tinha feito temer e
rezar por ele, quando tudo  sua volta era escurido e desespero.
Agora parecia que todo seu corpo vibrava com vida, que as trevas se
tinham dissipado, restando apenas uma luz que os envolvia, vinda de seus
coraes cheios de amor.
A princpio, o beijo do duque foi muito suave, como se ele temesse
assust-la.
Mas, ao sentir a doura dos lbios de Giona e o estremecimento que
percorreu o corpo dela quando a tocou, puxou-a mais para perto e sua boca
se tornou mais insistente, mais sequiosa.
Ao se sentir correspondido, soube que o sentimento que tinha despertado
nela e que ele compartilhava era diferente de tudo quanto experimentara
antes, e indefinvel.
Sabia apenas que tudo em Giona era diferente das outras mulheres por quem
tinha se sentido atrado, e daquelas que, mais cedo ou mais tarde,
invariavelmente havia se cansado.
Apesar de desej-la tambm como mulher, o que sentia por ela no era
apenas fsico. Giona lhe despertara algo intensamente espiritual.
Nunca dissera a ningum, mas aquele sentimento era o ideal que procurara
sempre, porm, nunca houvera encontrado.
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Sentia que Giona acreditava nele com todas as foras e lhe entregara seu
corao.
Os dois juntos poderiam fazer muita coisa, a fim de evitar que monstros
como, sir Jarvis fossem cruis para com os fracos e indefesos.
Apesar de o comrcio de escravos ter sido abolido por uma lei do
Parlamento, j h doze anos, havia ainda outras formas de escravido, que
embora rotuladas diferentemente, no deixavam de ser a explorao e a
degradao de desprotegidos. Quando ele ergueu levemente a cabea, Giona
murmurou:
- Eu... amo voc!
Ao ouvir aquelas palavras cheias de alegria e a expresso de felicidade
nos olhos dela, o duque percebeu que era o homem mais afortunado do
mundo.
- Eu tambm amo voc, minha querida! - respondeu. - Nunca mais ningum
assustar ou maltratar voc.
O rosto de Giona estava transformado de tanta felicidade.
- vou cuidar de voc e agora no h mais nada que nos impea de casar-nos
o mais depressa possvel.
- C... casar?
Era difcil articular a palavra.
- No temos ningum a quem pedir permisso - disse o duque.
- O nico tutor que voc ter futuramente, minha querida, ser seu
marido, que por acaso serei eu!
- Voc... est... mesmo... me pedindo... para casar... com voc? -
indagou Giona.
- No  bem uma pergunta - disse o duque -, porque no permitiria que me
desse um no como resposta. Quero voc, querida, tanto que nem sei como
dizer.
- Meu amor por voc, preenche o... mundo inteiro... e o universo e no
quero saber de mais ningum, a no ser voc! murmurou Giona. - Mas
voc... devia se... casar... com algum... muito mais... importante.
- Quero me casar com voc - afirmou o duque. - Quem vai aprovar a minha
escolha, e que para mim  mais importante do que qualquer outro de meus
parentes,  minha av.
- Tem... certeza? Certeza... absoluta? - perguntou Giona.
- Tenho - afirmou ele, sorrindo. - Mas, na verdade, no im123
porta muito o que vov ou os outros pensem. Eu amo voc e, para mim,  a
nica coisa que interessa.
- Para... mim... tambm! Mas... tem certeza... de que no fundo de seu
corao... voc me quer para sempre?
- Para todo o sempre, como nunca quis mais ningum - assegurou o duque.
- Oh, minha querida, no sabe como  linda e doce?
Ela levantou o rosto e a expresso que viu nos olhos de Valerian fez seu
corao saltar dentro do peito. Era tudo quanto tinha sonhado ver. Agora
estava certa de que aquele homem maravilhoso a amava com a mesma
intensidade com que era correspondido.
Ele poderia dizer que tinha sido o destino ou os deuses que os tinham
aproximado um do outro. Mas ela sabia, que tal como Apolo, ele trouxera
luz para o mundo de dor e sofrimento em que ela vivera, e cujo nico
porvir era a morte.
Como se adivinhasse o que ela estava pensando, o duque puxou-a mais para
si, dizendo:
- luro, minha doce querida, que nunca mais permitirei que voc tenha medo
ou se sinta infeliz. Nunca mais sofrer ou sentir-se- s
e sem amor.
- Voc diz palavras to maravilhosas! - exclamou Giona.
- So fceis de dizer - respondeu o duque -, porque voc foi a coisa mais
esplndida que aconteceu em minha vida.
- Voc... apareceu... quando eu estava desesperada e agora... tudo o que
quero...  me ajoelhar a seus ps... e lhe entregar todo o meu amor... em
reconhecimento.
O duque sorriu, respondendo:
- No vou deixar que voc se ajoelhe a meus ps, enquanto puder apert-la
em meus braos, meu amor. Mas quero que exteriorize seu amor porque  a
coisa mais preciosa que jamais tive.
Sem esperar que ela respondesse, beijou-a novamente, agora um beijo cheio
de paixo e desejo. Giona teve a impresso de que aquele contato era
ardente como o sol.
O corao de Valerian, tal como o dela, batia descompassadamente e os
dois respiravam com dificuldade.
- Desejo voc! - disse o rapaz com sua voz profunda. - Desejo voc, minha
querida, de mil maneiras, mas s quando for minha mulher poderei lhe
demonstrar o quanto voc significa para mim.
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com os dedos, delineou suavemente o rosto de Giona, acariciando-lhe depois
o pescoo.
Aquela carcia despertou em Giona sensaes que lhe eram totalmente
desconhecidas e sua respirao ficou ainda mais ofegante.
- Voc... est me fazendo... sentir... muito esquisita - sussurrou.
- Como assim? - perguntou o duque.
- Quente e doce, como... como... um raio de sol. O duque sorriu.
- Minha querida, voc  to pura e inocente!
- Voc... est rindo de mim... porque sou... ignorante?
- Estou adorando voc, porque nunca pensei encontrar algum to inocente
e isso me excita!
- Eu... excito... voc?
- Mais do que eu me atrevo a lhe dizer neste momento. Vendo a expresso
dela, perguntou:
- vou lhe perguntar de novo: quando  que vai se casar comigo?
- Agora! Neste... instante! - exclamou Giona. Ele desatou a rir,
carinhosamente.
- Era o que eu queria ouvir. Vamos falar com vov. Se nos casarmos aqui e
ela puder organizar tudo, voc ver que minha av estar curada do
reumatismo e remoar uns vinte anos.
- Isso s acontecer... se ela concordar... que eu sou... a esposa
apropriada para voc.
- Acho que ela pensava em voc para se casar com Lucien.
- com Lucien? - indagou Giona, espantada. - Mas que ridculo! Ele ainda 
um garoto.
- Tenho receio de que voc pense que sou muito velho para voc.
- Acho que est perfeito...  o homem mais maravilhoso que j conheci e
quando existe amor... acho que a idade no importa.
-  verdade - concordou o duque. - Quando estamos juntos, temos a mesma
idade, porque pensamos e sentimos da mesma maneira e no futuro, como nos
amamos, ficaremos cada vez mais parecidos.
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-  verdade... eu sei que  verdade! - concordou Giona. Mas ser que meu
amor... vai ser suficiente para voc?
Afastou o olhar, antes de dizer baixinho:
- Eu sou to ignorante... sobre tudo o que lhe interessa... na
Inglaterra. Voc j se esqueceu que nunca... morei neste pas? vou
cometer... erros... e talvez... voc venha a se... envergonhar de mim.
O duque sorriu, estreitando-a nos braos, novamente.
- Voc est me insultando com essa insinuao de que sou um homem sem
mundo. Mas nossa imaginao pode abraar a Terra inteira. O que importa o
que esteja acontecendo em Londres, se ns dois estaremos no pico do
Himalaia ou velejando no mar Vermelho?
Giona desatou a rir. Para o duque este foi o som mais lindo que j
ouvira.
- Na verdade, estou admirado comigo mesmo - admitiu o duque.
- Nunca fui dado a fantasias poticas!
Giona olhou para ele, que percebeu muito bem o que ela estava pensando.
- Voc tem razo - disse suavemente. - Foi o amor que me transformou, o
amor por voc, minha musa preciosa de nariz grego, que me fez sentir
totalmente diferente do que era antes. Nunca mais me surpreenderei com o
que disser, pensar ou fazer daqui para a frente.
-  assim... que amo voc tambm, murmurou Giona. - E... por favor...
vamos nos casar... depressa... porque quero ficar junto de voc... quero
que me ensine a amar.
- A est uma coisa em que estamos totalmente de acordo! afirmou o duque.
Colocou o brao  volta do ombro de Giona e foram andando para casa. Logo
a seguir, entretanto, puxou-a para si e, num impulso irresistvel,
comeou a beij-la novamente.
Agora seus lbios estavam possessivos, ardentes.
O fogo que o consumia despertou imediatamente o desejo em Giona, que teve
a sensao de que ambos estavam sendo carregados para o cu, ardendo num
calor maravilhoso.
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Eram uma s pessoa, rodeados de estrelas, do sol, de prpura e ouro,
movendo-se  volta do mundo, iluminados por uma luz que nunca
desapareceria.
Brilhante, intensa e maravilhosa, essa luz era um pouco do prprio Deus,
envolvendo Giona e o duque, abenoando os dois, unidos para a eternidade.
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                            *****

QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de cem milhes
de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita
importncia aos aspectos mais superficiais do sexo, o pblico se deixou
conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais.
E ficou fascinado pela maneira como constri suas tramas, em cenrios que
vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides
das florestas tropicais ou das montanhas d Himalaia. A preciso das
reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de
j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e
teatrloga. Mas Barbara Cartland se interessa tanto pelos valores do
passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo
de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por sua luta em defesa de
melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e 
presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.
Fim
